O desejo por trás da aquisição da Lucasfilm pela Disney, em 2012, era ressuscitar “Star Wars” nos cinemas e aproveitar o potencial da marca para estabelecer a franquia para a nova geração.

A ideia parecia que daria certo quando “O Despertar da Força”, três anos depois, rendeu cerca de US$ 2 bilhões nas bilheterias e abriu caminho para dois filmes diretos e dois derivados (“Rogue One” e “Solo”). A franquia, no entanto, entrou em declínio financeiro e criativo.

“A Ascensão Skywalker” (2019), longa mais recente da série, foi massacrado por fãs, críticos e pela bilheteria, que mal cruzou a marca do bilhão —algo impensável para a Disney se considerarmos o apelo e o custo de produção.

Rumores sobre a demissão da executiva Kathleen Kennedy, presidente da Lucasfilm, começaram a pipocar em Hollywood. Filmes dados como certo naquele universo foram cancelados ou adiados. Até Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, foi chamado para produzir um filme “Star Wars” e tentar manter o trem nos trilhos.

Mas foi outro artífice do Universo Cinematográfico Marvel que mudou os rumos da Força: Jon Favreau, diretor de “Homem de Ferro” (2008) e o homem que definiu o tom visual e narrativo da Marvel nos cinemas.

Ao comandar “The Mandalorian” (O Mandaloriano) para o Disney+, o showrunner e roteirista não apenas criou a primeira série televisiva em live-action de “Star Wars”, mas resgatou o clima de diversão, inocência e simplicidade das antigas matinês que inspiraram George Lucas a criar a saga, em 1977, e que tinha sido trocado por tramas sem lógica e derivativas nos longas recentes.

Assim como Lucas, Favreau bebe em antigos filmes de faroeste e de samurais para conceber a série de oito episódios por temporada –ela chega ao Brasil, pela Globo nesta segunda (16) às 22h45, e no streaming pela Disney+, no terceiro capítulo do segundo ano. O personagem principal é um caçador de recompensas mandaloriano, povo guerreiro que segue uma cartilha antiga e nunca pode tirar o capacete em público.

Ele busca suas presas em um universo “Star Wars” onde o Império foi derrotado há alguns anos pelo s Rebeldes, mas existe um vácuo no poder em diversos planetas —se passa entre “O Retorno de Jedi” (1983) e “O Despertar da Força” (2015). “Adoro a ideia de um lado mais sombrio e estranho de ‘Star Wars’, um aspecto meio ‘Mad Max’”, disse Favreau, em entrevista à Hollywood Reporter. “É algo pequeno e com novos personagens.”

Esse ângulo não poderia ser mais certeiro. Ao se livrar de toda a bagagem que vem com cavaleiros Jedi, adoradores da Força, sabres de luz e Lordes Sith, o cineasta fez uma mala enxuta e organizada para uma viagem deliciosa e com um ritmo lento para quem estava acostumado com os filmes.

A premissa da primeira temporada não podia ser mais simples: Mando (Pedro Pascal, de “Narcos”) é contratado por um cliente (Werner Herzog) para encontrar uma criatura, mas o guerreiro se apega à presa, um bebê da mesma raça do mestre Yoda, chamada apenas de “A Criança”.

Aos poucos, o Baby Yoda, que virou febre entre os fãs, vai deixando de ser apenas o elemento de reconhecimento fácil. Usando uma mistura de bonecos com algumas tomadas de computação gráfica, o personagem ganha vida e se incorpora à trama sem prejudicá-la. Algo proposital, tanto que sua presença não foi revelada pelos criadores até a estreia —a Disney topou perder alguns milhões de dólares ao não ter brinquedos imediatamente.

Apesar de Favreau citar “Breaking Bad” e “Game of Thrones” como referências, “The Mandalorian” está distante de ser algo tão intricado. O que é um alívio. De certa forma, a trama em passos vagarosos é um refresco bem-vindo para lembrar certos fãs xiitas de que estamos falando de uma franquia infantojuvenil sequestrada por marmanjos raivosos em busca de um passado que não volta mais.

A série se tornou o carro-mestre do Disney+ e uniu as tribos. O showrunner chamou diretores diferentes para ajudá-lo a obter uma visão mais diversa. Entre os escolhidos, há Taika Waititi (“Thor: Ragnarok”), Deborah Chow (“Mr. Robot”), Rick Famuyiwa (“Um Deslize Perigoso”), a atriz Bryce Dallas Howard (na estreia como diretora de ficção) e Dave Filoni, braço-direito de Favreau e animador especialista em “Star Wars”.

Filmada no Manhattan Beach Studios, em Los Angeles, a série já levou dois prêmios Emmy, um deles de efeitos especiais. A honraria é visível na telinha. Em vez de fundos verdes, a equipe utiliza uma mistura de realidade virtual e controle de câmera com fundos gigantes de LED pré-concebidos, como se os atores andassem em cenários projetados. O que é chamado de “produção virtual” tem elementos de videogames e traços da tecnologia usada em “Mogli” (2016) e “O Rei Leão” (2019).

Essa inovação deverá ser adotada por grandes produções hollywoodianas, como “The Batman”, pois barateia os custos e entrega um resultado espetacular. Nada em “The Mandalorian” parece barato ou claustrofóbico. E ela fica mais ambiciosa com o passar dos episódios e, principalmente, na virada de temporada.

A segunda temporada finalmente coloca Favreau na direção já no primeiro episódio, mas é no segundo que temos o perfeito exemplo de como “Star Wars” ainda pode ser encantador. Sob a batuta de Peyton Reed (“Homem-Formiga”), o capítulo é uma grande corrida espacial com direito a aranhas de gelo, humor sacaninha, ação desenfreada e vários “easter-eggs”. O roteiro agora se concentra na busca por outros mandalorianos, mas sem pressa ou saudosismo.

Assim como na Marvel, Jon Favreau virou a salvação de “Star Wars”.