O cantor mascarado é um dos truques mais antigos da televisão. Chacrinha já tinha esse quadro em seu programa, com produção mínima e desapontamento garantido: por baixo do disfarce sempre havia um cantor semidesconhecido, em busca de promoção fácil.

O enigma ganhou ares hollywoodianos com “The Masked Singer”, formato surgido na Coreia do Sul e que, através da poderosa produtora Endemol Shine (a mesma do BBB), ganhou versões em mais de 40 países. O Brasil é um dos últimos mercados importantes do mundo a recebê-lo.

Não se trata exatamente de uma competição musical, apesar de todos os candidatos cantarem. Há um prêmio para quem se sair melhor, mas a verdadeira graça é descobrir quem se esconde por trás das pesadas fantasias.

Nesta terça (10), finalmente estreou na Globo “The Masked Singer Brasil”. Mas porque o título em inglês? Obrigação contratual, ou o simples desejo de ressaltar que se trata de um formato internacional?

Em Portugal, a versão exibida pelo canal SIC chama-se “O Máscara”. E é ótima, aliás: certa vez, zapeando num sábado à noite, caí no programa e não consegui mais sair, mesmo sem conhecer nenhuma das celebridades envolvidas.

É com alívio que constato que a versão brasileira não fica atrás. O segredo de “The Masked Singer” é não se levar a sério, e a Globo respeitou esse descompromisso. Ninguém ali está desesperado para emplacar uma carreira na música, só se divertir um pouco.

E, pela estreia, “The Masked Singer” parece ser a diversão desmiolada de que tanto precisamos. O cenário colorido, o assoalho brilhante, os efeitos de luz, tudo não passa de um embrulho brilhante para um confeito delicioso sem nenhuma propriedade nutritiva.

Mas, antes de mais nada, é preciso destacar a desenvoltura de Ivete Sangalo como apresentadora. Não é de hoje que a baiana tem total intimidade com as câmeras, mas ela se mostrou tão à vontade, tão segura e tão bonita na função, que cabe a pergunta: por que esta mulher ainda não tem seu próprio programa de auditório?< /span>

Os 12 participantes foram divididos em dois grupos, e nesta primeira noite apenas um deles se apresentou. Os embates aconteceram entre o Unicórnio e a Arara, o Astronauta e o Coqueiro, e o Dogão e o Girassol.

Ao final de cada performance, o júri formado pelos atores Rodrigo Lombardi, Taís Araújo, pela cantora Simone Mendes (da dupla com Simaria) e pelo humorista Eduardo Sterblitch se comportava exatamente como o telespectador em casa, arriscando os palpites mais desvairados: Manu Gavassi? Ilze Scamparini? Eri Johnson?

Nem todas as fantasias entregaram o luxo prometido. A do Girassol parecia um improviso caseiro, indigno de participar de uma das atrações mais caras da TV brasileira. A “mostarda” sobre o corpo do Dogão lembrava um intestino exposto.

No final deste episódio inicial, cumpriu-se o ritual obrigatório: os três candidatos menos votados pelo público foram submetidos ao júri, que escolheu quem iria revelar sua identidade. Esta “desonra” coube ao Dogão, que era ninguém menos do que… Sidney Magal, um nome que ninguém arriscou. Devia haver um prêmio para quem consegue enganar todo mundo.

“The Masked Singer Brasil” gera uma tensão mínima, arranca algumas risadas e, eventualmente, até oferece boa música. Enche os olhos, não os ouvidos. Mas aquece o coração: não passa de um jogo de salão embrulhado para presente, e às vezes é só isto o que queremos depois de mais um dia neste país absurdo.
Leia mais (08/10/2021 – 23h58)