O Brasil inicia, oficialmente, a aplicação da terceira dose da vacina contra a Covid-19 na próxima semana. Embora algumas capitais tenham antecipado o calendário de reforço, a previsão é que a nova etapa de imunização comece em todos os municípios no dia 15 de setembro, após determinação do Ministério da Saúde. A decisão de aplicar uma dose adicional se baseia em análises clínicas, que mostram uma queda progressiva da resposta imune contra o coronavírus ao longo do tempo, especialmente em idosos e pacientes imunossuprimidos. Por isso, a recomendação do governo federal é que pessoas com mais de 70 anos recebam o reforço seis meses depois da última dose do esquema vacinal (segunda dose ou dose única) e pessoas com alto grau de imunossupressão recebam a aplicação 28 dias após o esquema básico. Nesse último caso, são considerados prioritários “pacientes em tratamento quimioterápico, transplantados, pessoas vivendo com HIV, que usam corticóides ou drogas modificadoras da resposta imune, além de pacientes em hemodiálise ou com doenças imunomediadas inflamatórias crônicas.”

Segundo nota técnica divulgada no fim de agosto pelo Ministério da Saúde, o imunizante usado para essa nova aplicação “deverá ser, preferencialmente, da plataforma de RNA mensageiro [Pfizer] ou, de maneira alternativa, vacina de vetor viral [Janssen ou AstraZeneca]”. Porém, mesmo com a recomendação do Programa Nacional de Imunização (PNI), alguns Estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, decidiram incluir a CoronaVac no rol de alternativas para o reforço imunológico. Na segunda-feira, 6, primeiro dia da nova etapa de imunização em São Paulo, 12.607 pessoas receberam a terceira dose em cidades paulistas, sendo que 99,2% tomaram a CoronaVac, 0,3% a AstraZeneca e 0,1% a Pfizer. O governo de São Paulo afirma que a exclusão da vacina do Instituto Butantan se motivou por uma “decisão política, não técnica” e reforçou a segurança do uso do imunizante para a terceira aplicação. “Nós devemos fazer uma dose de reforço com as vacinas que estiverem disponíveis, independente de quem tomou um tipo ou outro de vacina”, disse João Gabbardo, coordenador Executivo do Comitê Científico do Estado.

A decisão de São Paulo, no entanto, não é bem vista por parte dos especialistas em Saúde. O diretor da Sociedade Brasileira de Imunização (Sbim), Renato Kfouri, defende que a melhor opção é que o reforço vacinal seja feito com a vacina da Pfizer, que apresentou resultados superiores para imunização de idosos. Para ele, na falta do imunizante, as secretarias deveriam usar o composto da AstraZeneca. “São Paulo não está utilizando a melhor vacina para a população, está preferindo a utilização de um imunizante cuja resposta imune é inferior. Claro que vai dar um reforço, não há dúvidas de que mesmo com a CoronaVac você tenha um aumento da imunização, mas esse aumento no nível de anticorpos pode ser maior“, explica o imunologista. Na visão dele, além de causar confusão para a população, essas “condutas desencontradas” entre os governos devem impulsionar os “sommeliers da vacina”, pessoas que escolhem a marca do imunizante, realidade que já acontece no país. “Muitas pessoas estão recusando a CoronaVac para a terceira dose. Isso já é fato. Qualquer ruído de comunicação prejudica a campanha. O ministério [da Saúde] fala uma coisa, São Paulo faz outra, o Rio de Janeiro faz outra.”

CoronaVac: alternativa ou contraindicação?

A divergência de entendimento entre o governo de São Paulo e o Ministério da Saúde sobre a adoção da vacina do Instituto Butantan como dosagem de reforço gerou uma série de dúvidas na população, que questiona: a CoronaVac deve ser usada para a terceira dose? Para o infectologista Marcelo Otsuka, o imunizante pode ser usado para reforço vacinal contra a Covid-19. Segundo ele, análises clínicas preliminares mostram que a nova aplicação não eleva ou traz novos efeitos adversos à vacina, o que é positivo. “Existe algum problema em fazer a terceira dose com a CoronaVac? Temos poucos estudos, mas a princípio não. O único que temos é um estudo chinês que mostrou que a terceira dose aumentou 2,5 vezes a quantidade de anticorpos em relação aos que tomaram duas doses. Mas, na vida real, com grupos grandes, não temos análises sobre reforço com nenhuma dessas vacinas”, pontua Otsuka.

De acordo com o infectologista, mesmo com a falta de dados conclusivos, a CoronaVac é “bem vista e bem-vinda” para a terceira dose. Ele pontua que o direcionamento do Ministério da Saúde, definindo a vacina da Pfizer como preferência para a dosagem de reforço, acontece porque a pasta se baseou em uma pesquisa realizada pela farmacêutica norte-americana ao decidir pela necessidade do reforço vacinal. No entanto, isso não inviabiliza a utilização dos outros imunizantes disponíveis para aplicação no país. “Ainda carece de estudos robustos que corroboram tanto com a associação de vacinas quanto com a eficácia da terceira dose. Os dados que temos sugerem que sim [é eficaz], e que não há ampliação de efeitos colaterais, então já é uma grande coisa.”

Além das dúvidas sobre a adesão ou não da CoronaVac no rol das vacinas para a terceira dose, outro questionamento frequente é sobre a intercambialidade dos imunizantes. Ou seja, o uso de fármacos de laboratórios diferentes para o reforço vacinal. O Estado do Rio de Janeiro anunciou que vai optar pelo esquema de vacinação heteróloga. Ou seja, quem tomou as duas doses da vacina do Butantan deve receber a nova aplicação com composto da Pfizer ou da AstraZeneca, e vice-versa. Sobre essa possibilidade, Marcelo Otsuka também aponta que ainda faltam estudos sobre o tema, mas afirma que, considerando o conhecimento atual sobre as vacinas, a mistura não deve trazer riscos. “Tem algum problema em tomar as outras vacinas? A princípio não. Tem problema em tomar a terceira dose da CoronaVac? A princípio também não. Qual é a melhor opção? Ainda não sabemos”, admite o infectologista.