A Vitamedic Indústria Farmacêutica bancou a propaganda da associação Médicos Pela Vida em defesa do chamado “tratamento precoce”, comprovadamente ineficaz para o tratamento da Covid-19. A informação foi confirmada à CPI da Covid-19 pelo diretor-executivo da Vitamedi, Jailton Batista, que depõe nesta quarta-feira, 11, à comissão. “À Vitamedic foi solicitada o apoio da Associação Médico Pela Vida no patrocínio de um documento técnico-médico e ela o fez”, disse o depoente. “Foi a publicação nos jornais do manifesto da associação que a empresa assumiu o custo da veiculação”, explicou. No total, foram gastos R$ 717 mil.

A associação reúne médicos que defendem medicamentos do “kit-Covid”, entre eles a ivermectina, fabricada pela Vitamedic, ineficazes para tratar pacientes infectados com o novo coronavírus. No fim de fevereiro, o informe publicitário ocupou meia página de pelo menos oito jornais nacionais. À CPI, Jailton Batista também afirmou que a empresa não patrocinou nenhum estudo que pudesse atestar a eficácia do fármaco produzido pela farmacêutica. Segundo informações enviadas à comissão, as vendas de ivermectina pela Vitamedic saltaram de 24,6 milhões de comprimidos em 2019 para 297,5 milhões em 2020 – um crescimento superior a 1.105%. O preço médio da caixa com 500 comprimidos subiu de R$ 73,87 para R$ 240,90 – um incremento de 226%.

As declarações de Jailton Batista gerou revolta dos senadores da CPI. Presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), citou o fato de o governo do presidente Jair Bolsonaro ter incentivado o uso de medicamentos desta natureza, inclusive, quando a capital de seu Estado, o Amazonas, vivia o colapso da rede hospitalar, causado pela falta de oxigênio nas unidades de saúde. “O senhor sabe quantos amazonenses morreram por causa desse tratamento precoce? O senhor não tem noção, né? Mas pergunta para os que perderam vida com esse tratamento. E ainda tem sujeito que quer defender isso. Faltou oxigênio no meu Estado. Não levaram oxigênio, levaram ivermectina. Vocês têm responsabilidade sobre isso. O amazonense foi usado como cobaia”, disse.

“O manifesto foi assinado depois do caos de Manaus, que ficou conhecido pelo mundo. Esse manifesto vem após a morte de mais de 200 pessoas por dia na cidade de Manaus. Nem isso sensibilizou o laboratório em perceber que [o tratamento precoce] era um engodo, eram fake news. O laboratório visou lucro, mancomunado com alguns médicos. Se isso não for crime, não tem mais nenhum crime para investigarmos nessa CPI. Não era falta de conhecimento. O Tratecov [aplicativo lançado pelo Ministério da Saúde], já havia sido tentado em Manaus em janeiro, o documento vem mais de um mês depois que milhares de amazonenses perderam a vida, inclusive o meu irmão. Isso não sensibilizou. Era o lucro que queriam. Utilizaram da boa fé da população brasileira sites, o presidente [Jair Bolsonaro], médicos, e um laboratório que tinha faturamento de 200 milhões e foi para 534 milhões às custas de vidas de brasileiros”, acrescentou Aziz.