A ideia de destinar um dia para repensar o uso do carro próprio surgiu na França no final dos anos 1990. O objetivo, inicialmente, era discutir a dependência do automóvel e, aos poucos, o debate incluiu a preocupação ambiental, já que o transporte individual é responsável por quase metade das emissões globais dos gases que causam as mudanças climáticas. Aqui no Brasil, são vinte anos comemorando o Dia Mundial Sem Carro. Em São Paulo, a maior cidade do país, a porcentagem de pessoas que usam o veículo individual aumentou de 34% para 54% de 2017 até hoje, segundo uma pesquisa da Rede Nossa São Paulo.

A especialista em psicologia do Trânsito, Salete Romero, destaca que a população brasileira tem no automóvel uma falsa sensação de poder. “Todos nós fomos estimulados o veículo, o carro de passeio ou a motocicleta, tivemos muitos incentivos nesse sentido. E é importante falarmos dessa questão comportamental porque o veículo automotor é o que mais nos dar a sensação de poder. Chega a ser uma disputa de espaço, conflito. Nesse sentido, vai chegando o estresse, problemas em função do congestionamento, desgastes tanto econômico quanto de tempo. Se tivéssemos uma preocupação maior com o transporte público isso facilmente seria resolvido”, afirma. De acordo com o levantamento da Nossa São Paulo, dois terços dos usuários deixariam o carro de lado se houvesse boa alternativa de transporte público. 87% dos entrevistados são a favor da ampliação de corredores e faixas de ônibus, e 79%, de ciclovias e ciclofaixas. Os principais problemas apontados pelos usuários são os ônibus lotados, seguido pelo preço da tarifa e pela frequência dos veículos.

Para a analista de Mobilidade Urbana do Intituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), Annie Olviedo, é preciso repensar a lógica de remuneração do transporte. “Para o operador, retirar um ônibus de circulação e encher mais um ônibus ao invés de dois é uma forma de ampliar a margem de lucro. A tarifa aumenta, a qualidade cai, o usuário sai do sistema se ele pode comprar um carro, ou então ele é totalmente excluído do sistema, se ele não pode bancar sua própria locomoção. Então, uma tarifa mais barata e um sistema mais abrangente inclui as pessoas. E o transporte é um garantidor de outros direitos, de acesso à saúde, ao trabalho, ao lazer”, explica. Olviedo também destaca a necessidade de tornar o transporte público multimodal, possibilitando a integração dentro do próprio sistema e com outras formas de locomoção, como a bicicleta.

*Com informações da repórter Nanny Cox.