Nesta edição do Ensaio Palavra-Imagem publicamos, em primeira mão, trechos de autores premiados da 3ª edição do concurso “Ensaísmo Serrote” da revista Serrote: Evandro Cruz e Raphael Grazziano. A edição dupla será lançada na próxima terça-feira, ao vivo, pelo canal do IMS no YouTube.

No ensaio “Orfeu enfrenta o genocídio negro”, Evandro Cruz Silva (1992) aproxima o filme Orfeu negro, de Marcel Camus, e o livro clássico de Abdias Nascimento, O genocídio do negro brasileiro, numa releitura original que aponta futuros possíveis de um Brasil para além do racismo que o estrutura. Doutorando em ciências sociais pela Unicamp, escritor e educador popular, Silva pesquisa relações entre segurança, violência e desigualdades no Brasil urbano.

“Baltimore, ainda”, ensaio de Raphael Grazziano (1988), investiga o modelo de revitalização das cidades, desigual e excludente, que foi engendrado nos EUA dos anos 1970 e replicado nas décadas seguintes ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Formado em arquitetura e filosofia pela USP, na qual também realizou seu doutorado, Grazziano é pesquisador em teoria da arquitetura e do urbanismo contemporâneos.

Trecho de “Orfeu enfrenta o genocídio negro”

De Evandro Cruz Silva

2o lugar no 3o Concurso de Ensaísmo serrote

O ato de acusar o genocídio negro é, em si, ponto de partida para a construção da liberdade, libertação da violência e liberdade de caminhar em direção a um futuro distinto. Adotar a linguagem do massacre implica abandonar a falsa impressão de paz e, ao mesmo tempo, compartilhar uma certa imaginação do tempo e sua forma de expressão. É aí que está a força da cena da gira de Orfeu, seu caráter explosivo, que interrompe as duas passagens do herói negro pelo silêncio do desaparecimento genocida.

Essa concepção da linguagem religiosa como caminho de implosão do ciclo trágico do genocídio negro também ocupa as linhas finais da obra de Abdias Nascimento. No último dos anexos ao livro, o autor descreve como, para ele, “o mistério ontológico e as vicissitudes da raça negra no Brasil se encontram e se fundem na religião dos orixás: o candomblé. Experiência e ciência, revelação e profecia, comunhão entre os homens e as divindades, diálogo entre os vivos, os mortos e os não nascidos […], onde o homem pode olhar para si mesmo sem ver refletida a cara branca do violador físico e espiritual de sua raça.”

Crédito: Carlos Roberto de Planitz/ Coleção Martha e Erico Stickel/ Acervo Instituto Moreira Salles
Legenda: Vista da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro tirada da ilha das Cobras, c. 1840
Carlos Roberto de Planitz
Lith. Speckter & Co. – Hamburgo
(casa impressora)
Litografia sobre papel

Trecho de “Baltimore, ainda”

De Raphael Grazziano

2o lugar no 3o Concurso de Ensaísmo serrote

“Oh, Baltimore, cara, é difícil simplesmente viver.” Esse verso compõe o refrão de uma música de Randy Newman lançada em 1977 e depois interpretada por Nina Simone, que transformou o desabafo da constatação em uma pergunta inconformada: “Oh, Baltimore, não é difícil simplesmente viver?”. A cidade, que fora um porto importante, sofria no pós-guerra com a desindustrialização e a perda acelerada de empregos. A retração atingiu em cheio a população negra, que vivia em áreas especialmente afetadas pela crise fiscal da cidade, pois em Baltimore haviam sido promulgadas, no início do século 20, as primeiras leis norte-americanas de segregação espacial entre negros e brancos, depois replicadas pelo sul do país. Baltimore estava dividida. Por um lado, o “sonho americano” dos subúrbios brancos, da classe média assalariada e com acesso aos novos bens de consumo que reorganizaram os lares norte-americanos no pós-guerra, como carros e eletrodomésticos. Por outro, o núcleo urbano abandonado, formado por estruturas industriais decadentes e guetos de habitação social degradada, onde os moradores negros eram confinados. Na voz de Simone, a canção “Baltimore” retrata a dificuldade cotidiana da população negra, majoritária na cidade, desolada entre o desemprego e o desamparo.

Crédito da imagem: Abdias Nascimento/ Acervo Ipeafro
Legenda: Bastideana n. 3:ponto riscado de Exu cruzado com Xangô, 1972

Serviço

Lançamento serrote #35-36 | edição dupla

Conversa com os vencedores do Concurso de Ensaísmo serrote,

com Maria Lucas, Evandro Cruz Silva e Raphael Grazziano

Mediação: Paulo Roberto Pires e Guilherme Freitas

17 de novembro, terça-feira

18h

ao vivo pelo canal do IMS no YouTube | www.youtube.com/imoreirasalles

Grátis

O evento contará com intérprete de Libras