O cantor Tico Santa Cruz tem aproveitado a quarentena para “desfazer nós” do seu passado. “Eu errei muito”, diz o líder da banda Detonautas Roque Clube, criada em 1997.

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Por exemplo: o carioca de 43 anos conta que há alguns dias telefonou para o músico Di Ferrero querendo se redimir por ofensas que fez a ele e à banda NX Zero, anos atrás. Em junho, Tico se retratou com Lucas Silveira, da Fresno, outro ídolo do rock melancólico brasileiro do começo dos anos 2000.

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“Fui muito contundente com eles, preconceituoso, agindo de forma autoritária”, diz o cantor à coluna, em entrevista feita por vídeo na terça-feira (10). “Por imaturidade minha, vaidade, vendo que eu estava perdendo protagonismo naquele momento sem saber lidar com aquilo.”

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“Esses dias também aconteceu uma coisa muito louca”, segue o músico da sala de seu apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. “O Dudu Pelizzari, que é um ator que brigou comigo n’A Fazenda’, me mandou mensagem pedindo desculpas pelo que aconteceu.”

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Dudu e Tico participaram da terceira edição do reality show da Record, em 2010. “Ele [o ator] falou umas coisas sobre o meu filho que me deixaram revoltado”, diz o cantor, casado com Luciana Rocha e pai de Lucas, 19, e de Bárbara, 12.

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No programa, o roqueiro deu o apelido de Judas ao desafeto. “A gente ficou dez anos nesse hiato, sem nenhuma relação, embora eu tenha contato com outros participantes. Mas falei pra ele que não tenho orgulho do que fiz, fui muito agressivo. Então desfiz esse nó também.”

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A quarentena, afirma, o transformou em um “frenético assistidor de reality shows”. “Talvez por estar enclausurado, ganhei esse apreço pela convivência. Vejo tudo”, conta ele, que inclui “A Fazenda” no balaio. “[Hoje percebo] que existe uma falsa distopia nessa história de que a gente não pode ser intelectual e curtir coisas que são do dia a dia.”

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“Acho que aconteceu alguma coisa no universo que gerou essas situações”, brinca ele sobre o fim de velhas rusgas. “Estou fazendo coisas que foram fruto de reflexões na quarentena.”

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“Mas confesso que nos primeiros 15 dias [de isolamento social] eu entrei numa bad trip horrorosa de depressão e sentimentos pesados”, diz Tico. A pandemia de Covid-19 paralisou um projeto comemorativo que a banda preparava para este ano, após assinar novo contrato com a gravadora Sony Music em 2019, “depois de quase dez anos independente”. “Ficamos bem baqueados.”

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Em abril, ele compartilhou no Facebook um texto no qual revelou que “hoje eu pensei em tirar minha própria vida”, algo que já tinha cogitado “em muitos momentos” anteriores. “O propósito não foi falar que eu queria me suicidar, e sim dizer que quando você tem a ajuda emocional de um profissional, consegue identificar esses impulsos e neutralizá-los.”

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Tico diz dar muita importância para o tema da saúde mental, embora considere um assunto negligenciado. “Se você não estiver bem emocionalmente, não produz”, afirma ele, que se consulta com uma psicóloga desde 2004, ano em que entrou em crise existencial.

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“Foi uma época em que o Detonautas estava estourado. A gente tem uma tendência a sentir culpa quando avança e conquista um objetivo. Não sei se é uma questão cultural ou se é algo de olhar para o lado e ver que outras pessoas não estão conseguindo”, avalia.

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Foi em uma entrevista à apresentadora Leda Nagle que ele conheceu Eda Fagundes, a sua terapeuta. “Ela me deu o cartão dela, e lembro que demorei muito pra ligar, porque tinha aquela coisa de que psicólogo era coisa pra gente maluca. E eu não tinha clareza da minha ansiedade. Até que resolvi ligar, e foi como se eu estivesse quebrando um tabu.”

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“Ao longo dos anos, tive alguns episódios de depressão, por vários motivos. O Detonautas passou por momentos de baixos, e é difícil fazer um show e não ter quase ninguém. Bate um sentimento de ‘não sou mais relevante’. Isso gerava uma tristeza profunda.” A vivência pessoal do assunto levou Tico a escrever a música “Ilumina o Mundo”, em 2019, que chama a atenção para a questão do suicídio e foi feita com o Centro de Valorização da Vida (CVV).

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“Várias vezes na internet escreveram pra mim: ‘Por que você não se mata? Por que você não vai embora logo?’ São gatilhos pesados. Coisas que fiz questão de às vezes divulgar pra mostrar a crueldade das pessoas. Não é brincadeira. Isso é um crime.”

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O jeito para lidar com o baixo astral da pandemia foi “canalizar aquilo para algum lugar”. Em abril, o grupo lançou a música “Fica Bem”. “A partir dali, até para ocupar a cabeça, comecei a tocar violão todo dia, que era uma coisa que eu não fazia”, conta o compositor. “Isso me borbulhou por dentro, e comecei a escrever uma música atrás da outra.”

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Até que surgiu a ideia da canção “Carta ao Futuro”, que “veio quase que como uma psicografia”. “Escrevi de madrugada. [Depois] levei ela [a proposta] para a banda e entramos no debate se valia a pena, em um momento de pandemia, falar sobre política.”

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A música, que na letra cita o desprezo pela ciência e no clipe traz imagem do presidente Jair Bolsonaro, foi a primeira de quatro faixas lançadas até este mês que abordam temas como líderes religiosos milionários (“Mala Cheia”), fake news (“Kit Gay”) e o depósito de R$ 89 mil de Fabrício Queiroz para a primeira-dama Michelle Bolsonaro (“Micheque”).

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“Mudamos a abordagem. A ênfase que estávamos dando às músicas mais existenciais e românticas no início da quarentena virou para as músicas mais satíricas e irônicas.”

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Mas Tico se incomoda com quem diz que a banda só resolveu falar de política agora. “O Detonautas sempre fez críticas. Pega a discografia que você vai ver pelo menos, até 2013, umas doze músicas sobre esse tema. A gente nunca teve pudor de resguardar algum setor porque é de esquerda ou de direita”, diz ele, que se define de centro-esquerda.

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“Acho que como artista a gente tem, não sei se o dever, mas a oportunidade de usar o nosso espaço para poder falar sobre questões importantes. Só tem essa questão de não querer às vezes falar de um tema que pode prejudicá-lo, porque pode desagradar a um prefeito [que vai contratar o seu show], a um patrocinador.”

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Tico chegou a cursar dois semestres de ciências sociais na UFRJ. Depois, começou comunicação. Interrompeu para fazer educação física, que enfim largou para se dedicar à banda.

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Em 2006, o guitarrista do Detonautas Rodrigo Netto foi baleado e morreu, aos 29 anos, em uma tentativa de assalto. O episódio levou Tico às ruas para se manifestar e extravasar “a revolta”. Ele lamenta, porém, que não era levado a sério. “Eu era motivo de chacota.”

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“Eu olhava para tudo aquilo e me dava uma sensação de frustração”, diz ele, que desde cedo usou as redes sociais para se manifestar. Em 2010, porém, apagou seu Twitter por “um impulso”. Retornou depois. “Na época do impeachment da Dilma eu tinha alcances [no Facebook] semelhantes aos de jornais enormes.”

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“Tanto que, porra, eu sofri muitas represálias por conta disso. Fui ameaçado [de morte], tive que andar com escolta. Começou a haver movimento de boicote”, lembra o cantor. “Chegou num ponto em que ficou quase que impossível de a gente tocar nos lugares. Tive que vender uma casa porque conseguiram me censurar, abafar financeiramente.”

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“Em 2014, eu já sofria com milícias digitais. E os artistas não tinham a menor ideia do que isso significava”, diz. “Quando chegou 2018, com a eleição do Bolsonaro, eu resolvi sair fora do debate, me desligar das redes sociais, até por questão de saúde mental. Fiquei 2019 inteiro afastado.” Mas a pandemia chegou, e “até por todas essas atitudes que o presidente vem tomando, me vi obrigado a voltar a atuar na rede social de uma maneira mais intensa”.

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“Demorei muito tempo pra entender que talvez pela música eu fosse mais eficiente falando de política”, diz ele. “A minha postura individual prejudicou muito o Detonautas. Se eu tivesse ficado calado, seguindo uma cartilha de não me intrometer, talvez hoje a banda estivesse muito maior. Acho que, quando terminar a quarentena, vamos sair maiores do que a gente entrou.”

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“Não adianta ficar fazendo textão, batendo de frente, porque eu só ia cair no mesmo lugar. Tudo aquilo que vim fazendo ao longo desses anos, e que só me trouxe prejuízo, com a música eu percebi que começou a gerar resultados. Não sou político, não sou cronista, não sou jornalista. Eu sou músico.”