O médico, sociólogo e psiquiatra Emílio Mira Y López conta em seu livro “Quatro gigantes da alma” que muitos heróis de guerra surgiram por causa do medo. Se um soldado tentasse desertar, durante a fuga ele seria fuzilado pelas costas. Diante da certeza de morrer se tentasse fugir, e da esperança de sobreviver em combate, preferia ir para a linha de frente. E assim muitos se transformavam em heróis. Ou seja, para combater um medo, somente outro maior. Há mais de quatro décadas ministro cursos de oratória para políticos. Várias gerações de praticamente todos os cantos do país passaram pela minha sala de aula. Além disso, atuo como professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político na ECA-USP há 20 anos.

Falo dessa experiência para mostrar que sei como essa turma se comporta. Eles fazem um comentário recorrente: o maior temor de um político são as manifestações populares. Afinal, dependem do voto para sobreviver. E se a multidão vai às ruas para combater determinadas ideias, ainda que não concorde muito com elas, também precisa abraçar a causa. Eu me lembro da campanha das “Diretas Já”, lá pelos meados dos anos 1980. Montaram um painel na praça da Sé, no centro de São Paulo, com o nome de todos que eram favoráveis à volta dos pleitos diretos. Um de meus alunos, deputado federal, me disse que era contrário a esse retorno, mas jamais deixaria de aparecer naquele quadro. Com a pulga atrás da orelha me confidenciava: “Professor, ficar fora dessa luta é o mesmo que assinar a própria sentença de morte. Os eleitores jamais perdoarão”.

Nem é preciso ir tão longe para confirmar que eles têm razão. Foram as manifestações que tomaram conta das ruas em 1992 as responsáveis pela queda de Fernando Collor. Assim como Dilma Rousseff caiu pelo mesmo motivo. Por isso, o político prefere ver o demônio, a entrar em confronto com o seu eleitorado. Quando esses movimentos começam, ninguém sabe como irão terminar. Um motivo, aparentemente sem tanta importância, pode funcionar como estopim para outros mais robustos surgirem. A resistência ao aumento de 20 centavos no preço das passagens de ônibus em 2013 foi o gatilho para outras reivindicações sociais que levaram mais de um milhão a protestar. Viram que era possível mobilizar muita gente e tomaram gosto pelas passeatas. A presidente Dilma, que nem passava perto dos motivos dos manifestantes, três anos depois entrou no pacote. Sua popularidade, que era de 57%, despencou pela metade. E ela caiu. É consenso entre os políticos, portanto, que com o povo nas ruas não se brinca. A não ser que um medo maior possa fazê-los enfrentar a turba. Mas o que poderia assustar mais essas excelências que a perda de votos? É difícil encontrar um motivo. Alguns chegam a trair amigos de longa data só para não perder o poder que conquistaram nas urnas.

A votação na Câmara dos Deputados que derrubou a PEC 135 do voto auditável é quase incompreensível. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas em quase todas as grandes cidades do país como poucas vezes se viu na história. A pauta era única: voto auditável nas próximas eleições. Diante dessa manifestação de vontade, seria natural que os políticos acatassem o desejo de seus eleitores. Que nada! Enfrentaram o medo e votaram contra. Que medo maior tomou conta deles para que agissem assim? O presidente Jair Bolsonaro, em entrevista aos jornalistas em Joinville, não mediu palavras para dizer que a forma como agiram os ministros do Supremo, indo pressionar os líderes políticos dentro da Câmara, não era democrática.

Afirmou que houve clara interferência do Poder Judiciário no Poder Legislativo: “O ministro [Luís Roberto] Barroso foi para dentro do parlamento, reuniu-se com vários líderes partidários, e no dia seguinte a maioria dessas autoridades passaram a trocar os integrantes da comissão. E trocaram por gente que votaria contra. Isso é democracia? Eu quero saber qual o poder de persuasão do senhor Barroso. O que ele tem que olha nos olhos da pessoa e atrai? Por que ele não diz para mim o que ele falou lá? Quem sabe me convença”. Bolsonaro deixou evidente que houve pressão do ministro sobre os líderes. Talvez nunca venhamos a saber os detalhes dessa conversa, embora seja quase impossível segurar a língua de tanta gente. Mas que se sentiram intimidados se sentiram. E para que o temor fosse maior que o medo que os políticos têm das manifestações do povo, deve ter sido algo muito grave. Vamos ver agora como esse pessoal vai encarar os eleitores. Não paro de pensar: o que pode ser mais intimidador para um político que o risco de perder os votos? Siga no Instagram @polito.