A crise energética que o Brasil enfrenta preocupa em relação à possibilidade de novos apagões, como ocorreram em 2015, durante o governo Dilma Rousseff, e 2001, na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista ao Jornal da Manhã, o engenheiro eletricista do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo (Ibape/SP), Sergio Levin, comenta o assunto. Segundo o especialista, o Brasil possui, atualmente, maior capacidade de geração de energias alternativas, o que contribui no controle da crise energética. Apesar disso, ele reforça que isso não deverá evitar apagões a longo prazo, caso a escassez de chuvas se mantenha.

“As chuvas vindo de maneira fraca vai ajudar pouco na geração de energia. O que ajuda hoje a capacidade de geração é o acionamento de fontes alternativas, térmica, eólica. Em 2001 e em 2015 não tínhamos tanto a alternativa dessa manobra, o que gerou os apagões. Mas isso não significa que não vamos ter apagões agora. No futuro, se não houver uma reversão climática, com o retorno das chuvas de maneira abundante, vamos ter que acionar cada vez mais as usinas térmicas e alternativas, mas elas têm um limite. Alcançando esse limite, provavelmente a Câmara de Gestão de Crise Hidroenergética pode começar a ter ações cada vez mais fortes”, afirma Levin.

Para o especialista a atual crise é mais grave do que nos anos passados pela falta de perspectiva de chuva. “O Instituto Nacional de Metereologia está prevendo alguma chuva lá para novembro e isso não garante que os reservatórios vão ser repostos. No centro-sudeste, estamos com reservatórios com 18% do volume útil. Isso significa que está aquém do que precisamos”, ressalta. Entretanto, a capacidade energética do Brasil a partir de fontes alternativas vem contribuindo para o controle da situação. “Comparando com os momentos de seca em 2015 e 2001, o volume de chuvas também influenciou. A diferença é que agora nós temos uma capacidade de geração de energia alternativa um pouquinho maior, como, por exemplo, eólica. Na região Nordeste há muita geração de energia eólica. E essa capacidade de geração faz com que o Sistema ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] possa captar, mobilizar e trafegar essa energia para as regiões Norte, Sudeste e Centroeste”, explica o engenheiro.

Segundo Levin, o Sudeste e o Centroeste precisam dessas manobras da ONS por não conseguirem produzir a quantidade de energia que consomem em função da concentração populacional, do agronegócio, de produção industrial, o que gera uma demanda muito forte. “Essa demanda faz com que a gente faça o intercâmbio de energia através da Argentina e Uruguai. Já estamos recebendo energia de lá, que passa pelo Sul e a região também consegue abastecer um pouco a região Sudeste, que é a mais sensível neste momento”. O especialista destaca que, com os estoques hídricos abaixo do ideal, a tendência é que, no futuro, a Câmara de Gestão de Crise Hidroenergética implemente mais ações como a bandeira da escassez na conta de energia. “A nova bandeira torna possível gerar mais energia alternativa, que é paga e mais cara. Essa energia vai sendo acionada, trazida do Nordeste, através da ONS, para suprir São Paulo, que é um grande consumidor”, diz Levin.