Ao longo dos meus vinte anos de psiquiatria, percebi uma coisa: ao mesmo tempo que ainda temos muito preconceito relacionado à saúde mental, é cada vez mais comum a banalização do diagnóstico psiquiátrico, bem como o uso inadequado de antidepressivos. Enquanto portadores de transtornos emocionais resistem ao tratamento, alguns buscam no medicamento uma forma de se anestesiar.

Quando falo no título deste artigo sobre a felicidade sem medicação e sem moderação, não estou escrevendo para aqueles com o diagnóstico de algum transtorno emocional, pois estes, sim, precisam do tratamento psiquiátrico. Mas estou me dirigindo àqueles que escolhem o caminho mais fácil dos psicotrópicos diante das dificuldades da vida.

Um estudo realizado pelo Grupo Consumoteca, publicado em 2020, revelou que 58% dos brasileiros estão insatisfeitos com a vida, o que nos coloca em primeiro lugar entre os países latino- americanos. Eu me pergunto todos os dias: qual a razão de tanta infelicidade? Por que somos o país mais ansioso do mundo segundo a OMS? Eu poderia citar aqui inúmeras causas, como a insatisfação financeira ou problemas de relacionamento pessoais. Mas prefiro ir na origem de tudo: o paradigma da infelicidade.

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Há séculos, de geração em geração, aprendemos que a felicidade é alcançada quando obtemos sucesso. Por exemplo, primeiro você deseja, então se sacrifica e, quando atinge o resultado, fica feliz. Isso vale para um carro novo, a casa própria ou até mesmo para perder 10 quilos. Convenceram-no de que todo sacrifício vale a pena nessa jornada e que abrir mão da satisfação do dia a dia, em prol de um sucesso futuro, é para os fortes.

Compramos uma ideia de que podemos vender nosso bem-estar do presente para alcançar uma felicidade futura. Não tenho dúvida de que são essas crenças que estão por trás da epidemia de tristeza no mundo. Se continuarmos a pensar assim, estaremos condenados à insatisfação, porque o sucesso jamais trará felicidade, o máximo que ele poderá trazer será algum grau de prazer momentâneo. No dia seguinte, sua angústia estará no seu peito novamente.

Mas nem tudo está perdido! Graças a um novo ramo da psicologia, conhecido como psicologia positiva, as coisas estão mudando. Pesquisadores estão demonstrando, por meio de estudos científicos sérios, que a relação entre sucesso e felicidade é exatamente o oposto. Não é o sucesso que leva à felicidade, mas sim pessoas felizes são as que têm mais chances de alcançar o sucesso. A felicidade está no caminho, como resultado das suas escolhas no dia a dia. Ela é resultado do seu estilo de vida, desde o que você come, até as horas de sono que você tem. Quer uma prova da relação entre a sua alimentação e seu humor? Pesquisadores espanhóis concluíram que uma dieta rica em alimentos fast-food aumenta em 51% a probabilidade de ter depressão.

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Felicidade não é sentir alegria o tempo todo, é exercer o direito de sentirmos o que temos de sentir. Alegria nos tempos bons, tristeza nos ruins, raiva e até ódio. A dor faz parte da vida e do amadurecimento. Felicidade sem medicação e sem moderação é isso: uma nova forma de pensar, com habilidade para ver o lado positivo em situações desfavoráveis. É um novo paradigma, que acredita que a felicidade do dia a dia o empurra para o sucesso, e não o contrário.

Felicidade é ter um estilo de vida saudável, associado à prática de exercícios físicos regulares, dieta equilibrada, meditação e terapia. Felicidade é nos aceitar como somos. É deixar extravasar todas as nossas potencialidades. É enfrentar as dores… É nos tornarmos um pouquinho melhores a cada dia, sem contraindicação!

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Dr. Pablo Vinicius é médico psiquiatra, pesquisador, palestrante e autor do livro Antitarja Preta.

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Publicado em VEJA São Paulo de 18 de agosto de 2021, edição nº 2751