Por que cuidamos uns dos outros? Como posso estender esse cuidado de forma sustentável a mais pessoas? A certa altura, foi inevitável me questionar sobre o que é essa capacidade de cuidar (de nós e dos outros), de nos adaptarmos, de experimentar a vida, de conviver com o que pensamos e sentimos, e de como podemos contribuir de forma mais significativa para a sociedade.

Esse assunto entrou em pauta na minha vida há muito tempo, mas esse entendimento não foi óbvio. O caminho até aqui foi longo: desde a infância estive envolvida nas ações de cuidado com o próximo por meio de minha família, primeiro com minha avó paterna e minha mãe, depois com minha sogra e amigas, gerações diferentes de mulheres que apostaram no cuidado. Mas algo sempre me incomodou, aquele apagar de incêndios que se repetia ano após ano não era o suficiente e me sentia impotente ante os problemas estruturais que geram essa demanda por necessidades básicas.

Sempre que chegava em casa eu pensava: “tantos setores recebendo investimento social, mas no fim do dia a gente está sempre falando sobre pessoas, né?”. Queremos elevar os índices de aprendizado escolar, diminuir a violência, aumentar a taxa de emprego, escalar o acesso à saúde e tantas outras necessidades que acabamos esquecendo que o protagonista dessa história toda é o indivíduo. Comecei a acreditar que as pessoas precisam ter acesso a ferramentas socioemocionais que as tornem capazes de tomar melhores decisões na vida. Por isso, em 2019, comecei a me aprofundar mais sobre impacto social no Brasil e no mundo e a desenhar o Instituto Cactus, organização pioneira na causa da saúde mental, olhando especialmente para mulheres e adolescentes.

Acabamos de comemorar um ano e o processo de nascimento do instituto foi influenciado por minhas experiências no setor filantrópico e por essa herança familiar em apostar no cuidado. Realmente é preciso ser muito criteriosa para falar sobre saúde mental, temos de considerar todos os atravessamentos da questão, como educação, trabalho, moradia, cultura e mais inúmeros determinantes que constituem nossa singularidade. Mas sabemos que não tem como melhorar índice de nada na vida sem enfrentar o desafio de abordar esse “elefante branco”, por isso apostamos em atuar com saúde mental.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu e já foi transformada por aqui, além de pensar sobre o cuidado: por que, como e com qual nível de assertividade estamos cuidando de nós e dos outros? Também tenho me questionado muito sobre o poder das narrativas e quanto elas contribuem para o pensamento crítico das pessoas. Como queremos que a importância sobre a saúde mental seja contada? Por quem ela deve ser contada e de que maneira ela pode ser contada?

O poder está na narrativa de cada um de nós, ora ouvintes, ora agentes ativos. Como nós, como sociedade, podemos dar a centralidade que a saúde mental já ocupa, ainda que silenciosamente, no nosso lar, trabalho e relacionamentos? Acredito que, com a diversidade de olhares, sotaques, gerações e ecossistemas contando essa história, estaremos mais próximos da mudança de cultura em relação à saúde mental que queremos.

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Maria Fernanda Quartiero é diretora-presidente do Instituto Cactus, organização que trabalha para a promoção da saúde mental por meio da geração de conhecimento, multiplicação de boas práticas, incidência em políticas públicas, articulação de ecossistemas e conscientização.

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Publicado em VEJA São Paulo de 8 de setembro de 2021, edição nº 2754