Pacientes perdem a visão após cirurgia durante 'mutirão da catarata' em SP e buscam ajuda

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Três aposentados afirmam que, após realizarem cirurgia, que ocorreu no mesmo dia em um mutirão em Praia Grande, perderam parte da visão. Eles entraram na Justiça e pedem a punição dos responsáveis. Pacientes perdem a visão após cirurgia de catarata em Praia Grande
Há quatro anos três idosos passaram por cirurgias de catarata em Praia Grande, no litoral paulista, com a esperança de voltarem a enxergar como antes. Entretanto, o resultado foi o contrário do esperado, e todos perderam parte da visão no procedimento cirúrgico. Após diversas tentativas em vão de diferentes tipos tratamentos e procedimentos para tentar reverter o resultado, os pacientes decidiram ir à Justiça, pedindo a punição dos responsáveis.
Os procedimentos que prejudicaram a visão dos aposentados José Geraldo de Jesus, de 68 anos, José Lopes Pereira, de 70 e João Batista Belchior, de 72, foram realizados pelo Governo do Estado de São Paulo em um mutirão no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Praia Grande. A cirurgia do trio ocorreu na mesma data, em julho de 2017.
Conforme contam, todos foram diagnosticados com catarata ainda em 2016 e passaram por um primeiro mutirão em janeiro de 2017, sem contratempos. O problema ocorreu no segundo mutirão, realizado em julho de 2017, no AME de Praia Grande. Cerca de dez pessoas operaram a catarata no mesmo dia e parte delas apresentaram dificuldades no pós-operatório, incluindo o trio que, anos depois, ainda sonha em recuperar a visão.
Segundo relatam os idosos, mesmo depois de passarem por tratamentos, novas operações e até tentativas de transplante de córnea, não tiveram evolução clínica e, em meio à sensação de perda de liberdade, eles cobram a punição dos responsáveis.
Pacientes perdem a visão após cirurgia de catarata em AME de Praia Grande, SP
Matheus Tagé/Jornal A Tribuna
“Estava feliz. Sonhando que iria enxergar melhor. Mas, imagina abrir os olhos e não conseguir enxergar nada? Pior coisa que já me aconteceu”, relembra José Geraldo. O aposentado conta que sentiu muitas dores após a cirurgia e nunca se esquece de que não conseguia enxergar nada na frente dele, em um momento em que já deveria estar se recuperando da operação.
Geraldo e os dois colegas entraram para a sala de cirurgia com uma pequena diferença de tempo. O trio sentiu dores nos dias seguintes e decidiu voltar o AME de Praia Grande. Mas, aquele foi o início de uma longa jornada.
“Perder a visão foi perder totalmente a minha liberdade”, diz João, que não pôde mais dirigir profissionalmente e ouviu de sua médica que não havia mais o que fazer em relação à visão perdida na cirurgia de 2017. “Não conseguimos mais fazer nada sozinhos. Perdemos nossa personalidade e nossa autoestima”.
O advogado Thyago Garcia, que representa o trio, explica que outros pacientes que fizeram a cirurgia no mesmo dia apresentaram um quadro de perda de visão. Documentos foram separados pelos pacientes e o caminho escolhido foi ir à Justiça. “Como é um mutirão do Governo do Estado, eles terão que responder também por isso”.
Fundação do ABC
Em nota, a Fundação do ABC afirma que não houve erro médico e relata que o AME Praia Grande realiza média de 150 cirurgias de catarata por mês com equipe profissional altamente especializada, mestres e professores universitários, com resultados excelentes há mais de 10 anos.
Conforme afirma, nos casos específicos em questão, os pacientes foram submetidos à cirurgia de facoemulsificação com implante de lente intraocular, em julho de 2017, sendo que não houve nenhum tipo de intercorrência durante os procedimentos cirúrgicos. Contudo, foi identificado no acompanhamento pós-operatório edema de córnea persistente, de causa inflamatória, que não se resolveu com os tratamentos clínicos realizados pela equipe do AME Praia Grande.
A Fundação também alega que a inflamação é um efeito adverso previsto na literatura médica e cujas causas são diversas, inclusive doenças preexistentes e que diferem totalmente de casos de infecção. Em função do quadro clínico no pós-operatório, afirma que os pacientes foram encaminhados para o Setor de Córnea do Departamento de Oftalmologia do Centro Universitário Faculdade de Medicina da Fundação do ABC (FMABC), que é referência nacional em Oftalmologia.
Durante o acompanhamento especializado na FMABC, a Fundação relata que dois pacientes já realizaram transplante de córnea. Concomitante ao tratamento na FMABC, o AME Praia Grande continua prestando assistência integral, com outras avaliações e em diferentes especialidades. No momento, inclusive, um dos pacientes realiza procedimento pré-operatório no AME Praia Grande para realização de transplante de córnea.
A Fundação do ABC e o AME Praia Grande afirmam lamentar profundamente a situação, mesmo com todos os esforços dispensados, e relatam que seguem à total disposição dos pacientes para a continuidade dos tratamentos.
Secretaria de Saúde
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde afirma que não foi citada até o momento, mas está à disposição para prestar os esclarecimentos necessários. A pasta alega que o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Praia Grande realizou os procedimentos seguindo todos os protocolos desde o pré-operatório, com cirurgias sem intercorrências e acompanhamento no pós-operatório.
Segundo afirma a Secretaria, o evento adverso apresentado por estes pacientes está previsto na literatura médica e pode estar relacionado inclusive a comorbidades prévias, sendo portanto inadequado relacioná-lo à conduta cirúrgica. A pasta ainda afirma que os casos foram inclusive avaliados pelas Comissões de Infecção Hospitalar e de Ética do AME e não foi constatada nenhuma anormalidade na assistência.
Diante do quadro, a Secretaria de Estado da Saúde alega que o AME manteve a assistência e encaminhou os pacientes ao serviço de referência nacional em Oftalmologia, do Setor de Córnea do Departamento de Oftalmologia do Centro Universitário Faculdade de Medicina da Fundação do ABC (FMABC). Destaca ainda que neste mês inclusive passaram por consulta especializada no serviço, além de passar por atendimento multidisciplinar no AME.
Além disso, afirma que dois pacientes já realizaram transplante de córnea em 2019. De acordo com a pasta, o terceiro paciente está sendo acompanhado em virtude de comorbidades para definição de conduta terapêutica apropriada.
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