Estudo mostra que ações melhoram a qualidade do ar, podem piorar aquecimento global, ou vice-versa. Cientista Paulo Artaxo diz que empresas, indivíduos e governos têm que se engajar, com cada um implementando ações da sua competência. Foto de arquivo mostra vista da Marginal Tietê junto à Ponte da Freguesia do Ó, na zona norte de São Paulo, com destaque para a poluição do ar
Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo
A poluição do ar mascara o aquecimento global nos grandes centros urbanos e gera o efeito positivo de resfriamento do clima, de acordo com o mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, sigla em inglês) publicado na segunda-feira (9).
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O cientista Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da USP e autor do capítulo do estudo dedicado os poluentes de vida curta emitidos em áreas urbanas, como os aerossóis, explicou ao G1 que a abordagem do mascaramento da temperatura e a quantificação disso estão entre as grandes novidades desta edição do relatório.
“Mascaram 0,5°C do aquecimento. Então se as mudanças climáticas causadas pelos seres humanos levaram a um aumento de 1,1°C na temperatura do planeta e existe esse mascaramento, o aumento é de 1,6°C nos centros urbanos”, explicou Artaxo.
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O estudo esclarece que mudança climática e qualidade do ar estão intimamente relacionadas, sendo a primeira um resultado da emissão de gases que impactam a atmosfera por séculos, enquanto a segunda é impactada por emissões cujos efeitos têm escala de tempo mais curta, durando dias ou anos, e, por isso, têm efeitos mais regionais.
De acordo com o relatório é possível implementar políticas “ganha-ganha”, em que se limitam as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que se melhora a qualidade do ar. No entanto, nem sempre essa relação é equilibrada, pois algumas ações são neutras e outras são de ganha-perde, que melhoram a qualidade do ar, mas causam aquecimento global, ou vice-versa.
“A eletrificação da frota veicular, o fim da queima de carvão, o investimento em energia eólica e solar são ações que diminuem a presença dos aerossóis e isso é bom para a qualidade do ar. Por outro lado, sem eles, a temperatura do planeta aumenta 0,5°C, já que removemos o componente que mascara 1/3 do problema. Ou seja, o estudo mostra que a questão do aquecimento global é um pouco pior do que observamos”, disse Paulo Artaxo.
Paulo Artaxo, doutor em física atmosférica pela Universidade de São Paulo
Divulgação/USP Imagens
A maioria das atividades humanas, segundo o estudo, geram tanto alterações climáticas, quando degradação da qualidade do ar, como a produção de energia, a agricultura, o transporte, os processos industriais, o uso de aquecedores e ar-condicionados, ou mesmo acender a uma lareira. Desse modo, o que o relatório mostra é que a qualidade do ar e as mudanças climáticas representam as duas faces da mesma moeda, e devem ser abordadas em conjunto.
“O relatório já dá a receita: temos que reduzir as emissões já. Qual a data limite pra agir agressivamente? Foi ontem. As empresas, os indivíduos e os governos têm que se engajar, com cada um implementando ações da sua competência. Na cidade de São Paulo temos 33 mil ônibus, todos queimando combustíveis fosseis. Por que não ônibus elétricos ou de baixa emissão? É possível? É. É barato? É. É factível? É. É uma questão política relacionada a grupos econômicos”, concluiu Paulo Artaxo.
O relatório da ONU indica que o impacto da ação humana já está perto do limite de 1,5ºC de aumento da temperatura global que foi definido em 2015 durante a COP21, no Acordo de Paris. À época, os países presentes se comprometeram com algumas metas para conseguir barrar as mudanças do planeta, incluindo o Brasil, que diz querer atingir a neutralidade nas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2060.
O IPCC foi criado em 1988 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial com o objetivo de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas.
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Perspectiva: 9 pontos do impacto
Abaixo, veja nove pontos do impacto do aumento da temperatura global na vida na Terra, segundo o relatório do IPCC:
A temperatura da superfície terrestre subiu mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos visto nos últimos 2 mil anos;
As ondas de calor se tornaram mais frequentes e mais intensas em quase todos os continentes do planeta desde 1950, enquanto frios extremos se tornaram menos frequentes e menos severos;
Nas últimas 4 décadas, houve um aumento da proporção de ciclones tropicais;
A influência humana aumentou a chance de eventos extremos desde 1950 e isso inclui a frequência da ocorrência de ondas de calor, secas em escala global, incidência de fogo e inundações.
Em 2019, a concentração de CO² na atmosfera era maior do que em qualquer outro momento nos últimos 2 milhões de anos e a concentração de metano e óxido nitroso era a maior em 800 mil anos;
As ondas de calor marítimas ficaram aproximadamente duas vezes mais frequentes desde 1980;
Entre 2011 e 2020, a área média de gelo no Ártico atingiu seu número mais baixo desde pelo menos 1850 e era, no final do verão, menor do que em qualquer época nos últimos mil anos;
O recuo das geleiras – com uma redução sincronizada em qualquer todas as geleiras do mundo desde os anos 50 — é sem precedentes pelo menos pelos últimos 2 mil anos;
O nível médio do mar aumentou mais rápido desde 1900 do que em qualquer século em pelo menos nos últimos 3 mil anos.
Grande camada de poluição é vista no céu da região central de São Paulo na manhã desta segunda-feira (16)
Nelson Antoine/Estadão Conteúdo