G1 conversou com urbanistas que falaram sobre o desenvolvimento do município e as expectativas de urbanização para os próximos anos. Vista da cidade de Presidente Prudente a partir do Bairro São Sebastião
João Lucas Martins/TV Fronteira
De um pacato patrimônio à maior cidade do Oeste Paulista. Em 104 anos, completados nesta terça-feira (14), Presidente Prudente (SP) evoluiu, mas ainda tem muito a ser trabalhado para que a qualidade de vida da população melhore. Contudo, a cidade também é colocada como acolhedora em seus pontos positivos.
O G1 conversou com urbanistas, que falam sobre o desenvolvimento do município e as expectativas de urbanização para os próximos anos.
Transformações
Arquiteto e urbanista Hélio Hirao
Wellington Roberto/G1
Historicamente, para configurar sua estrutura básica, a cidade contou com planos urbanísticos desenvolvidos por instituições de excelência, como o Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (CPEU) da Universidade de São Paulo (USP).
Entretanto, para o arquiteto e urbanista Hélio Hirao, neste século, o município “não acompanhou o movimento das suas transformações, muito atrelado aos interesses do mercado e do imediatismo de soluções, sem considerar a totalidade, seu crescimento tem comprometido tanto as questões funcionais como existenciais dos habitantes da cidade”.
Ainda, a participação da população nos direcionamentos urbanos é pequena. De acordo com Hirao, é possível verificar um ativismo de coletivos artísticos “muito presente nos espaços públicos abertos da cidade que podem contribuir para uma ação mais efetiva das pessoas na construção compartilhada da cidade”.
“Acho que o urbanismo deve ser uma somatória de planos, integrando as instituições com sua comunidade e seus desejos e necessidades”, disse ao G1.
Vista aérea do Parque do Povo, em Presidente Prudente
Prefeitura de Presidente Prudente/Divulgação
Qualidade de vida
Quando se fala de qualidade de vida oferecida pela estrutura urbanística de Presidente Prudente à população, é ressaltado pelo especialista que “temos uma cidade muito desigual, que materializa as diferenças socioeconômicas, áreas com acentuada carência de equipamentos urbanos básicos, como a zona norte da cidade”.
Segundo lembrou Hirao, há um “amontoado de casas” que impossibilita a habitação com atributos de qualidade. “Ela é múltipla, os habitantes precisam de lugares de compras e serviços, lazer, ensino, saúde, cultura, preservação de elementos naturais e construídos, entre outros”, explicou.
Por outro lado, existem os lugares e ambientes com alta qualidade de vida, sendo eles, muitas vezes, condomínios fechados e com acesso restrito.
“Precisamos ter um outro olhar para os espaços abertos da cidade, considerar a multiplicidade dos que a habitam, não querer homogeneizar, padronizar, uniformizar, como queriam os urbanistas modernistas”, declarou.
Também foi colocado por Hirao que “é preciso considerar esses territórios, muitas vezes invisíveis na perspectiva da cidade produtiva, que se ativado intensifica a relação de afetos das pessoas do lugar com sua ambiência e atmosfera estimulando o sentido de pertencimento e potencializando a qualidade de vida da cidade. Por outro lado, implantar outros territórios idealizados ou de outros lugares pode iniciar processos de gentrificação expulsando as pessoas e esvaziando os espaços”.
Já aos visitantes que circulam pela cidade por necessidades de trabalho ou ensino encontram uma infraestrutura de acolhimento para moradia ou “lazer efêmero já estruturado em função dessa demanda pelas características de polo regional da nossa cidade”, segundo o urbanista.
“Existe uma potência cultural e de recursos naturais a ser desenvolvida que pode tornar a cidade atraente, tanto para os habitantes quanto para os turistas”, declarou.
Desafios
Para Hirao, o conceito de cidade se dá como “espaço da multiplicidade”. São “locais heterogêneos” e pessoas diversas habitam esse lugar, que se movimenta e se transforma. “No entanto, o que se verifica é diferente disso, acentua-se o processo de fragmentação e segregação socioespacial, o muro, como limite entre as partes da cidade estão em todos os lugares”, ressaltou.
De acordo com o especialista, a pandemia da Covid-19 mostrou uma coisa “muito interessante”.
“Mesmo com a prática do isolamento social, verificou-se a necessidade de as pessoas habitarem os espaços públicos abertos da cidade, como as ruas e as praças, ao relacionar com essas ambiências e com o outro, as relações subjetivas e intersubjetivas ativou territórios, por vezes invisíveis ao olhar da produtividade, demonstrando o conteúdo dos espaços da cidade. Elas não podem ser consideradas apenas para circulação, precisam ser pensadas, também, como lugares das práticas socioespaciais, do encontro dos seres humanos, muito além da cidade funcional, a existencial”, esclareceu.
Há também o contexto da intensificação da configuração de uma “cidade genérica”, “com a substituição de bens patrimoniais por construções que atendem apenas aos interesses imediatos do mercado e da sua funcionalidade, sem nenhum conteúdo arquitetônico, descaracterizando a cidade, como também verifica-se a proliferação de loteamentos com edificações padronizadas, uniformizadas, sem nenhum caráter arquitetônico que identifiquem as pessoas com seus espaços, enfim não consideram as potências da ambiência, atmosfera e características socioculturais em que se inserem, tornando uma cidade monótona, triste e sem expressão”.
Novo século
Segundo colocou Hirao, as tecnologias informacionais têm acentuado transformações profundas no contexto deste novo século. “Seus impactos, já são visíveis, como por exemplo, o transporte por aplicativos e diminuição dos deslocamentos com os regimes de teletrabalho ou home office”, comentou.
“Creio que precisamos pensar em como utilizar os proveitos dessas tecnologias para melhorar a mobilidade urbana, principalmente o transporte público”, acrescentou o especialista.
Além disso, o urbanista lembrou que, na atual “era da valorização das questões de sustentabilidade, do corpo saudável” é importante incorporar e rever a malha cicloviária, “que não tem relação de continuidade” e também as ruas e praças, “que precisam facilitar as circulações e permanências das pessoas”.
“É preciso voltar a caminhar e andar pelos espaços abertos e públicos da cidade, experienciar o contato com os objetos e as outras pessoas para valorizar a cidade e a vida”, salientou.
Outra situação a ser enfrentada e pensada é a mobilidade urbana. “Repensar o modal de transporte, além e, do próprio ônibus, integrar a outros, visando qualificar a experiência de viver na cidade”.
“Por outro lado, temos bairros com muita carência de infraestrutura básica, que precisam de atenção para deixarem de ser apenas bairros dormitórios. Construir políticas urbanas de preservação das ambiências e atmosferas da cidade, que estão em péssimas condições de manutenção, antes que desapareçam da paisagem e a cidade se torne genérica, sem expressão e conteúdo para seus moradores”, esclareceu.
Presidente Prudente completa 104 anos de fundação nesta terça-feira (14)
Stephanie Fonseca
Positivo e negativo
Presidente Prudente, como toda cidade média, tem suas singularidades, e são muitas, conforme Hirao. Pelo lado positivo, o especialista começa com destaque a pontos relacionados com a história da cidade.
“Temos, ainda persistente no espaço, a paisagem das duas vilas que originaram a cidade, a Vila Goulart, em frente à Estação Ferroviária, e a Vila Marcondes, do outro lado, no meio, a ferrovia abandonada. Multiplicidades espaciais que apresentam ambiências características, uma ainda com a atmosfera que remetem a tempos anteriores, do outro, uma em constante transformação, uma cidade funcionalista. Cada qual com seu cenário de edificações e espaços públicos que identificam a cidade”, relatou.
É citado pelo urbanista um lugar construído por pessoas das diversas tribos da cidade, o Parque do Povo. “Apesar de ter o córrego tamponado, a apropriação socioespacial tornou esse espaço um lugar com muita vitalidade e referencial urbano”.
Na Vila Marcondes, o polo cultural formado pelo Centro Cultural Matarazzo e o Galpão da Lua, além de preservar a atmosfera histórica acumulada e materializada no espaço, oferece um amplo leque de atividades culturais de qualidade, também segundo colocou o urbanista.
“Enfim, creio que a relação de afeto que atravessa as pessoas e objetos potencializa os espaços da cidade de expressões que qualificam seus atributos urbanísticos”, disse.
Já pelo lado negativo, “o pensamento racionalista funcionalista modernista levou ao tamponamento de diversos córregos da cidade, conduzindo a percepção de uma cidade abstrata”.
“Seria interessante a recuperação dessas ambiências gradativamente, incorporando no cotidiano das pessoas os aspectos naturais da paisagem, para compreensão dos processos de ocupação dos nossos territórios de forma mais coerente e sustentável, bem como atenuar os problemas das enchentes em épocas de chuvas intensas em áreas como a do Parque do Povo”, enfatizou.
Habitações populares em Presidente Prudente
Divulgação/Prefeitura
O urbanista ainda comentou que quaisquer espaços das cidades têm a ação das pessoas, sendo ressignificadas e apropriadas a seu jeito. “Assim, vejo o desenho do Calçadão da área central, propondo um desenho padronizado, uniformizado e igual dos espaços sendo modificado e ressingularizado pelo movimento dos diferentes corpos que apropriam e reconfiguram esses espaços da cidade para poderem habitá-lo”.
“Da mesma forma, vejo a reforma que está acontecendo na Praça da Bandeira, mas ela é uma praça contemporânea, múltipla, heterogênea e diversa, que será ressignificada pelos corpos que a habitam resistindo a um modelo idealizado, determinado, que não considera os diversos territórios existentes”, finalizou.
Hélio Hirao é arquiteto e urbanista, professor-assistente doutor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Presidente Prudente, e conselheiro suplente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU-SP).
Infraestrutura urbana
Arquiteta e urbanista Mayara Pissutti Albano Vieira
Wellington Roberto/G1
Arquiteta e urbanista, a professora doutora Mayara Pissutti Albano Vieira, da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), tem uma visão positiva sobre a cidade. “Acho uma cidade agradável e, embora possua fragilidades, como qualquer outra cidade, vejo muitos pontos positivos. É uma cidade limpa, possui diversidade de produtos e serviços, há áreas de lazer agradáveis”, esclareceu ao G1.
A especialista acrescentou que há boa oferta de infraestrutura urbana. Ela indicou que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há esgotamento sanitário em 98,1% do município. Esta é uma das características admiradas por Mayara.
“No entanto, a cidade possui uma malha urbana repleta de vazios, que são ruins para o desenvolvimento urbano, encarecem a mobilidade, aumentam os custos para extensão de infraestrutura urbana, entre outros aspectos, que considero negativos”, expôs.
Expansão urbanística
De acordo com Mayara, a velocidade de expansão urbana em Presidente Prudente nem sempre ocorreu na mesma proporção de sua real necessidade.
“Diversos pesquisadores já apontaram momentos em que tal fato ocorreu. Entre os anos de 1960 e 1985, com destaque à década de 1970, por exemplo, houve expansão urbana desproporcional ao crescimento demográfico, com a implantação de áreas implantadas descontinuamente à malha urbana existente. Muitos dos lotes foram adquiridos como instrumentos de investimentos”, explicou.
A especialista indicou que, segundo os dados disponibilizados pelo IBGE, no ano de 2010, quando houve o último censo demográfico oficial, Presidente Prudente possuía cerca de 207 mil habitantes. A estimativa para 2021 é de quase 232 mil pessoas.
“Nota-se que o número de habitantes não vem aumentando de forma acelerada. Se este padrão de crescimento populacional observado na última década não sofrer significativa alteração, não justifica uma expansão urbanística desenfreada. Caso ocorra, será da mesma forma que nas décadas anteriormente citadas, sem real necessidade, com destinação a investimentos no setor imobiliário”, acrescentou.
A cidade é um organismo dinâmico, portanto, o desenvolvimento não é algo estático. “Acredito que a cidade tenha condições de se expandir com qualidade, mas para isso é necessária ação contínua de planejamento urbano, ampliação de sistemas de infraestrutura com destaque à mobilidade”, explicou.
“São necessários investimentos e melhorias contínuas e proporcionais à expansão em áreas como transporte coletivo, habitação, educação, saúde, entre outros, de modo que acompanhem essa expansão urbanística”, esclareceu Vieira.
Com prioridade
A articulação da expansão urbanística à necessidade de serviços públicos pode ocorrer com a prioridade ao modo de expansão mais compacto, incentivando o uso e a ocupação do solo urbano mais diversificados, com mistura dos diferentes usos (residencial, comercial, serviços, etc.), de acordo com a doutora.
“Também coibindo a expansão urbana desmedida, apoiada na geração de vazios urbanos, que fazem aumentar a demanda por serviços públicos e aumentam os custos desta provisão aos cofres públicos; além de fazer aumentar as distâncias a serem percorridas diariamente pelos citadinos, que acarreta em diminuição da qualidade de vida urbana e aumento da queima de combustíveis fósseis pelos veículos de transporte coletivo e individuais”, argumentou ainda.
“Pensar na expansão urbanística aliada às necessidades de serviços públicos é pensar numa cidade mais compacta e, consequentemente, mais sustentável”, destacou.
Conforme a especialista, a expansão urbana desmedida “exerce pressão sobre áreas verdes que, outrora, muitas vezes, estavam cercadas por ambientes mais naturais”.
“Mais córregos serão cercados por cidade, mais espaços verdes serão pavimentados para dar lugar às ruas quando a cidade se expande. Este é um outro motivo para se desejar e investir em uma cidade mais compacta”, ressaltou.
Área central de Presidente Prudente
Stephanie Fonseca/G1
Condomínios e habitação popular
Para Mayara, o surgimento de novos condomínios residenciais de luxo em Presidente Prudente é similar à expansão urbanística. “Acredito que muito desta produção é destinado a investimentos imobiliários. Presidente Prudente irá comportar tantos condomínios quantos o mercado absorver”, comentou.
Atualmente há também condomínios com preços mais acessíveis, o que atrai investidores de classe média e não apenas de classes de renda mais alta, segundo observou a urbanista.
“Eles representam uma expressão do que cientistas sociais chamam de ‘urbanismo do medo’ e é reflexo da sociedade contemporânea. Os condomínios fechados provocam descontinuidades no traçado urbano e, consequentemente, de fluxos e do espaço público; dificultando, dentre outros pontos, a mobilidade e acessibilidade urbana. São soluções particulares para a questão da segurança, não beneficiam a coletividade”, explicou.
Presidente Prudente é a única cidade do Oeste Paulista que tem mais de 200 mil habitantes
Prefeitura de Presidente Prudente/Cedida
Mayara ainda colocou que, “quanto mais condomínios fechados Presidente Prudente tiver, mais fragmentada ficará sua malha urbana. Este quesito engloba uma discussão bem mais profunda e demasiadamente complexa. Limito minha resposta apenas ao aspecto abordado”.
“Os interesses imobiliários privados afetam a expansão urbana a partir do momento em que se sobrepõem aos interesses coletivos, quando a atuação é direcionada apenas pelo princípio do lucro. Cabe ao poder municipal aprimorar as ferramentas de planejamento urbano de modo a direcionar a expansão e o desenvolvimento urbanos”, colocou.
De acordo com Mayara, historicamente, “a habitação popular foi um instrumento usado para expandir os limites da malha urbana e o perímetro urbano onde os conjuntos habitacionais e loteamentos populares foram implantados de modo descontínuo ao núcleo urbano compacto”.
“Estas áreas descontínuas, via de regra, são mal equipadas e com pouco ou quase nada de oferta de serviços necessários. A geração dessas áreas periféricas, num processo dicotômico, colabora para a valorização de localidades que, então, se tornam mais centrais, alimentando, assim, o processo especulativo. Dessa forma, a cidade se torna um espaço desigual no tocante à acessibilidade da população às áreas centrais, que são mais bem servidas por equipamentos e serviços”, explicou.
Segundo a urbanista, a estruturação urbana é um processo e a sua análise deve levar em conta os movimentos que estruturam o urbano, que, por sua vez, é fruto da ação de várias forças que se articulam em sentidos e intensidades diferentes.
As classes sociais de maior renda têm e sempre tiveram maior domínio no que diz respeito à localização urbana e, desta forma, possuem maior influência sobre as áreas de expansão.
“Para a habitação popular, o que se vê na história brasileira e, consequentemente, na história de Presidente Prudente, sempre foram destinadas as localizações de menor valor para o mercado, via de regra distantes e com maior grau de dificuldade no tocante à acessibilidade”, comentou.
Ainda segundo Mayara, “como resultado desta conformação, cuja marca é a segregação socioespacial, têm-se áreas onde a ocupação se dá predominantemente por habitações populares”.
“O modo como elas podem afetar a expansão urbanística é inibindo empreendimentos imobiliários destinados às classes mais altas nestas partes da cidade, visto que não há interesses da parte contrária em morar/investir em áreas ocupadas predominantemente pela classe popular. Todavia, no geral, são afetados por esse processo e não atuantes nele, posto que possuem menores condições de escolha”, esclareceu.
No decorrer da urbanização brasileira, com características particulares em alguns momentos, observa-se, nas palavras de Csaba Deák, uma “massa de subproletariado que se avolumava nas aglomerações urbanas”.
“A falta de emprego e renda faz com que as pessoas inseridas nesta condição socioeconômica precisem ‘improvisar’ sua moradia. De que modo isso ocorre? A partir da ocupação de áreas públicas e privadas, da construção de moradias precárias, da superlotação de cortiços etc.. A cidade se expande, mas de modo informal, à margem da lei”, explicou.
Mayara ainda colocou que, “além da baixa qualidade ambiental urbana destes espaços, têm-se também baixa qualidade de vida da população, aumento da violência urbana, dentre outras questões que repercutem na cidade como um todo”.
“Todos pagam essa conta. Dessa forma, é importante que a cidade trabalhe no sentido de gerar emprego e renda, de promover habitação de interesse social, de melhorar as condições urbanas das áreas de maior vulnerabilidade social: de garantir o acesso à cidade”, enfatizou.
Responsabilidades
Arquiteta e urbanista Cristina Maria Perissinotto Baron
Stephanie Fonseca/G1
A arquiteta e urbanista Cristina Maria Perissinotto Baron, professora doutora da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, no campus de Presidente Prudente, falou que o poder público tem um protagonismo no enfrentamento dos problemas urbanísticos da cidade e deve chamar a responsabilidade para o ordenamento urbanístico e promover um processo participativo de discussão e decisão.
A especialista destacou três aspectos imprescindíveis. Veja na íntegra a argumentação:
1. Participação popular: Para que isso aconteça, é muito importante que o poder público envolva a população prudentina, promovendo reuniões nos bairros para explicar o que são planejamento urbano e planos urbanos, principalmente sobre o Plano Diretor, e informando como ela pode participar desse processo.
2. Manter um diagnóstico atualizado sobre o município para subsidiar programas e ações no espaço urbano. Esse diagnóstico precisa conter informações sobre a população, sobre a infraestrutura e os serviços públicos, como:
dados sobre a população: crescimento e envelhecimento, deficit habitacional, população em situação de vulnerabilidade social, saúde, escolaridade;
informações sobre os aspectos físicos territoriais: áreas de proteção ambientais (córregos e parques), vazios urbanos, áreas permeáveis, cadastro atualizado das áreas públicas, áreas invadidas etc.;
equipamentos públicos e cobertura na malha urbana, por exemplo, as redes de saúde, educação, cultura, esportes, lazer, atendimento social, segurança;
serviços públicos, mesmo que fornecidos por outras empresas públicas ou concessões, como as redes de infraestrutura: abastecimento de água, rede de esgoto, águas pluviais, tratamento do esgoto, rede energia elétrica, iluminação pública, mobilidade urbana, coleta e tratamento dos resíduos sólidos.
3. Manter uma agenda permanente de discussão e um processo contínuo de planejamento. Os problemas urbanísticos não vão se resolver apenas com leis urbanas, é necessária uma gestão participativa para identificar os problemas e as prioridades.
A população também tem responsabilidade quanto ao assunto, esta por meio da participação no processo de planejamento, discutindo e pactuando, junto com o poder público, sobre as decisões para melhorar a qualidade de vida.
“Mas não vamos esquecer que ela também ocorre quando há respeito às leis urbanas, por exemplo, construindo dentro das normas existentes; fiscalizando o poder público na utilização dos recursos financeiros; participando dos conselhos municipais; exigindo transparência na tomada de decisões; acompanhando as pautas e leis propostas pela Câmara Municipal”, informou.
Com a pandemia da Covid-19, houve a necessidade do isolamento social. Contudo, com o processo de retomada das atividades, “é possível perceber uma valorização das áreas de lazer como locais de sociabilidade, como também o impacto que a ausência desses espaços em bairros periféricos pode causar no convívio social e na própria noção de cidadania”.
“É responsabilidade da população cobrar do poder público espaços urbanos qualificados”, salientou.
Continuidade…
A continuidade da expansão urbanística de Prudente no século 21 é um “ponto delicado”, segundo Cristina. “Primeiro que essa ideia de desenvolvimento associada com expansão urbana está ultrapassada, isso vem das décadas de 1970-80. Outro aspecto diz respeito a quem interessa expandir, aqui proprietários de terras e especuladores imobiliários são os maiores defensores dessa ideia”, disse.
A urbanista comentou que, “se o poder público considerasse o impacto social e financeiro que a expansão urbana traz para o próprio município com o prolongamento das redes de infraestruturas, aumento do tempo no transporte público, mais área para realizar a coleta de lixo e novos equipamentos urbanos, por exemplo, investiria na ocupação das glebas vazias que já possuem condições de ocupação. Os instrumentos urbanos para utilização dessas áreas já existem”.
“Os custos de urbanização são pagos por toda a população, por exemplo, quando determinada linha de ônibus precisa aumentar o percurso, os custos recaem sobre o transporte público como um todo e a população vai ficar esperando mais tempo para pegar o ônibus”, comentou.
A especialista ainda lembrou que Presidente Prudente já tem como objetivo específico, no próprio Plano Diretor: “IV – otimizar o adensamento das áreas urbanas consolidadas e infraestruturadas de modo a evitar a dispersão da ocupação”. “Precisamos fazer com que esse objetivo seja atingido”, salientou Cristina.
Outro ponto importante citado pela doutora sobre para Presidente Prudente “estar na vanguarda como município sustentável” é o de que a cidade necessita trabalhar com os objetivos da Agenda 2030, estabelecidas pela Assembleia Geral das Nações Unidas, principalmente o “11. Cidades e Comunidades Sustentáveis: Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”.
“Isso implica em: moradia digna, acesso aos serviços urbanos, transporte público de qualidade, urbanização inclusiva, gestão participativa, proteger e salvaguardar o patrimônio cultural – material e imaterial, reduzir o impacto ambiental, acesso universal aos espaços públicos. Os desafios são muitos”, explicou.
Quanto aos limites para a expansão na cidade, a especialista acredita no trabalho “de fora para dentro dos bairros existentes nas periferias ocupando os vazios até as áreas mais centrais”.
“Por exemplo, primeiro atendendo os bairros periféricos que até hoje não possuem condições dignas de habitat, a moradia é apenas um dos itens. Como exemplo, finalizar as escolas do Conjunto Habitacional João Domingos Netto e urbanizar as áreas de lazer deveriam estar nas metas e ações prioritárias do poder público. Essa política deve ocorrer nos demais bairros que até hoje carecem de algum tipo de equipamento urbano”, esclareceu.
Presidente Prudente completa 104 anos nesta terça-feira (14)
Stephanie Fonseca/G1
Previsões
O G1 perguntou aos profissionais se seria possível prever como a cidade se expandiria no decorrer deste século 21 e como chegaria ao final dele. Veja as observações de cada um dos especialistas.
Hélio Hirao
“A cidade apresenta vazios urbanos que causam enormes custos para a cidade. A sua ocupação de forma sustentável pode acomodar o seu crescimento populacional”, declarou Hirao.
Para o especialista, a expansão urbana deverá estar atrelada à questão de sustentabilidade ambiental, da preservação dos fundos de vale, do correto encaminhamento das questões dos resíduos sólidos, “buscando um equilíbrio da preservação de elementos naturais, como considerar os construídos, realizando uma gestão eficiente de energia”. “Assim, potencializar a Cidade Inteligente pelo uso da tecnologia na gestão de seus recursos e da sua infraestrutura”.
Tudo está em constante movimento e transformação, conforme destacou Hirao. “Ainda bem, e estão em processo constante de territorialização, desterritorialização e reterritorialização, assim os corpos resistem ao que as ambiências determinam e desta forma ressignificam seus espaços”.
“Mesmo verificando a acentuada tendência à fragmentação e segregação socioespacial, não vejo outro caminho do que pensar uma cidade para as pessoas, assim faço no meu ofício de ensinar e pesquisar na Unesp, para os futuros arquitetos e urbanistas. Em vez de focar nos objetos, reconhecer as tecituras das relações do corpo com o objeto, ativar esses afetos que atravessam os corpos e objetos para imaginar uma cidade com suas multiplicidades, heterogeneidades, diferenças, enfim, em suas singularidades que são os seus encantos para o habitar, conformando territórios existenciais, além das funcionais, para não ser um corpo cibernético, mas humano. Assim, muitas vezes, as intervenções são simples e singelas, que transformam, ressignificam, qualificam seus espaços para seus habitantes”, disse.
Mayara Vieira
Com uma citação de Matus, Mayara colocou que “planejar é sinônimo de conduzir conscientemente […]. Negar o planejamento é negar a possibilidade de escolher o futuro, é aceitá-lo seja ela qual for”.
A urbanista explicou que “planejar é um ato de se desdobrar sobre o cenário atual e desenvolver prognósticos sobre o futuro, a partir da formulação de possíveis cenários conscientes e realistas, que possibilitem reações ágeis diante de situações adversas improváveis ou imprevisíveis, buscando relações com exemplos pretéritos de onde se absorva conhecimento a partir de experiências já vivenciadas”.
“Aliás, o planejamento urbano deve ser promovido por meio de ações conjuntas entre o poder público e a sociedade civil. A participação cidadã é um direito garantido por lei. A gestão democrática é diretriz da política urbana trazida pela Lei Federal nº 10.257/2001. Desta forma, todos podem opinar sobre o futuro das cidades”, salientou.
Cristina Baron
Cristina colocou que não é possível prever/imaginar/planejar, porque “precisamos primeiro definir quais serão as diretrizes”.
“Nesse sentido, espero que possamos planejar para termos uma urbanização com qualidade, respeitando o meio ambiente, sem construir nas áreas de preservação permanente e sem aumentar a malha urbana”, enfatizou.
Ela comentou, ainda, que na cidade há três cursos universitários de arquitetura e urbanismo, bem como cursos das áreas de engenharia civil, ambiental e cartográfica, de geografia, além de direito, esse último contribuindo na área do direito urbanístico. “Um fórum de discussão envolvendo as universidades, a Câmara Municipal, as secretarias responsáveis pelo planejamento urbano e a população seria um bom início de discussão”, finalizou.
Cidade de Presidente Prudente completa 104 anos de fundação nesta terça-feira (14)
Stephanie Fonseca/G1
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