Dois moradores e um integrante da quadrilha morreram. Outras cinco pessoas ficaram feridas, entre elas um jovem, de 25 anos, que teve os dois pés amputados após se aproximar de um explosivo. Relembre como foi o mega-assalto a agências bancárias de Araçatuba
Era por volta da meia de meia-noite da última segunda-feira (30) quando os primeiros tiros foram disparados. Assustados, moradores de prédios de Araçatuba (SP) começaram a filmar as cenas impossíveis de serem esquecidas.
“Ele fez uma barreira com gente para passar na rua. Ali ó, não dá pra ver direito. Estou tremendo muito”, narrou uma mulher enquanto filmava a ação da quadrilha.
Terror em Araçatuba: saiba como foi o mega-assalto a agências bancárias
Usando coletes à prova de balas, luvas, roupas especiais e capacetes, os homens estavam fortemente armados e atiravam para o alto a todo momento. O barulho ensurdecedor dos fuzis de longo alcance acordou grande parte dos moradores.
Segundo a Polícia Militar, a quadrilha, formada por mais de 20 pessoas, tinha como alvo duas agências bancárias. Elas ficam na região central de Araçatuba e são separadas pela Praça Ruy Barbosa.
Criminosos fortemente armados durante mega-assalto em Araçatuba
Reprodução/câmera de segurança
Em uma delas, que funciona como uma tesouraria regional, os criminosos tiveram acesso ao cofre subterrâneo. Em outra, a quadrilha explodiu os caixas eletrônicos. A terceira agência bancária teve apenas os vidros danificados por tiros. A quantia levada ainda não foi divulgada.
Para dificultar a ação da polícia, o grupo atacou a sede do Batalhão de Ações Especiais (BAEP) e usou um drone para monitorar a ação. Veículos incendiados também foram colocados em rodovias da região impedir a chegada do reforço policial.
Criminosos atearam fogos em veículos durante mega-assalto em Araçatuba
Arquivo Pessoal
Imagens de circuito de segurança registraram o momento em que os criminosos começaram a dominar os moradores da cidade.
O personal trainer Márcio, de 34 anos, aparece sendo rendido sob a mira de um fuzil. Ele foi usado como escudo humano e morto durante troca de tiros. A mesma câmera de segurança também registrou duas mulheres e um homens sendo obrigados a descer do carro.
Câmera de segurança flagrou abordagem a personal trainer vítima de ataque em Araçatuba
Em outro ponto da região central, dois reféns ficaram sob a mira um assaltante. A câmera registra o momento em criminoso é baleado e cai. O comparsa tenta se aproximar para ajudar, mas, com medo de ser atingido, volta para calçada. Áudios dão a entender que o imprevisto fez com que os bandidos antecipassem a fuga.
Confira a transcrição do áudio:
“Levanta esse drone agora, que daqui cinco minutos? Ele tá no carro baleado, o parceiro, mano.”
“Acalmou. Se a gente vai levantar o drone agora, como vamos sair? É agora que nós vamos sair? Vamos levantar o drone na hora que a gente for sair, não adianta levantar o drone e depois não conseguir levantar mais quando a gente for sair.”
“Vamos embora, levanta o drone e vamos embora. O parceiro está baleado.”
“Para nós irmos embora e ‘os caras’ da amarela?”
“Positivo. Amarela, vamos embora.”
“Amarela, vamos embora. Tem baleado lá.”
“Certo.”
“E aí, da 01, alemão, meu amigo, você quer passar na praça, é isso?”
“Estamos na praça, todo mundo vai para o meio da praça, entendeu?”
Áudio mostra discussão de quadrilha durante ataque a bancos em Araçatuba
Durante a fuga, reféns foram usados como escudos humanos. É possível ver em um vídeo de câmera de segurança que dois moradores foram colocados sobre o capô de um carro. Um outro trecho da mesma gravação revela que um dos motoristas chegou a manobrar o veículo para desvirar de um explosivo instalado no meio da rua.
Em alta velocidade, os criminosos seguiram para o bairro Engenheiro Taveira, usando carros de luxo, blindados e adaptados para tiros de fuzis serem disparados do interior. Um dos tiros acertou a mão de uma refém. Ela e a irmã foram colocadas dentro da caçamba de uma caminhonete.
Mulher relembra momentos em que foi feita refém durante assalto em Araçatuba
“Eles ficaram dentro da caçamba junto com a gente. A caminhonete saiu em alta velocidade, e os disparos não pararam. Nossos corpos batiam a todo momento dentro da caminhonete contra os corpos deles, porque eram cinco pessoas na caçamba. Os disparos entravam lá dentro, perto da nossa cabeça”, disse a moradora, cuja identidade não será revelada.
A mulher também relatou momentos de pânico, insegurança e medo. Ela diz que nunca vai conseguir esquecer o que aconteceu na madrugada do dia 30 de agosto.
“Por volta de mais ou menos das duas horas da manhã foi que começaram a pedir para gente ficar em pé nas ruas como um cordão humano. Nesse momento, eles ergueram um drone, para que vissem melhor se havia algum movimento por perto, e começaram a distribuir cada local que cada pessoa teria que ficar. Um dos rapazes foi colocado no capô, o outro na parte de cima do teto da caminhonete. Eu e a minha irmã ficamos na parte de trás da caçamba. Não demorou muito começamos a ouvir muitos disparos, como se fosse uma troca de tiros. Atirando todo momento sobre a caçamba, a todo momento”, relatou
Mulher feita refém foi baleada em uma das mãos durante assalto em Araçatuba
Reprodução/TV TEM
Segundo a vítima, um dos homens que também foram mantidos reféns era o marido de uma mulher que aparece correndo com um bebê no colo enquanto os criminosos rendem moradores.
“O marido dela foi o que foi no teto da caminhonete. Ele perguntava a todo momento se a mulher dele estava bem, se ela tinha saído. Eu afirmava que vi ela correndo com o bebê, que ela estava bem, que eles não tinham pegado ela. Ele estava bem desesperado para saber se a mulher dele estava bem”, contou.
Câmera mostra mãe com criança no colo enquanto quadrilha rende moradores de Araçatuba
Ela também viu quando o personal trainer Márcio Victor foi obrigado a ficar sobre o capô da mesma caminhonete em que estava.
“Ele foi um dos reféns que estavam no nosso grupo. Eles pediram para que ele ficasse no capô, e o outro que estava com a gente na parte de cima do teto. E nós duas na caçamba. Quando a gente estava no Taveira, não tinha o Márcio mais no capô, e nem o outro. Eram só nós duas na caçamba, o outro refém e os dois bandidos”, contou.
Quando chegaram ao bairro Engenheiro Taveira alguns criminosos continuaram a fuga pé, em meio ao matagal. Outros roubaram carros de moradores. Houve confronto com a polícia, e um dos bandidos acabou morto.
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“A gente começou a pedir e a implorar para um dos bandidos liberar a gente. Ele pediu pra que a gente sentasse de esquina e aguardasse lá. No movimento deles para saírem, meio de distração, eu puxei minha irmã e pedi pra que ela corresse para o mato e não olhasse para trás. A gente correu e ficou escondida no mato por um tempo”, disse a mulher feita refém.
Quando os tiros acabaram, a cidade ainda não estava segura. Pelas ruas vários explosivos foram deixados, muitos deles com sensor de movimento. Um morador da cidade teve os dois pés amputados depois que um desses artefatos explodiu.
Morador fica ferido após ser atingido por explosivo deixado por bandidos em Araçatuba
Cleyton Alexandre Souza Teixeira, de 25 anos, circulou pela área central de bicicleta após o tiroteio. Ele chega a parar algumas vezes para observar mais de perto os artefatos, como mostra uma câmera de segurança. Minutos depois, foi atingido pela explosão.
A região central de Araçatuba ficou isolado por dois dias. As aulas também foram suspensas e a vacinação contra a Covid-19 prejudicada. Somente na quarta-feira (1º) é que a rotina começou a ser retomada.
Moradores de Araçatuba começam a retomar rotina após mega-assalto que terminou com três mortes
Segundo a Polícia Federal, o equivalente a 200 quilos de explosivos foi encontrado e detonado. Treze veículos foram apreendidos e passaram por perícia. Outros oito carros de moradores foram roubados para serem usados durante a fuga.
Alguns dos veículos usados no crime estavam preparados para receber armamento de grosso calibre. Eles foram adaptados para que os tiros fossem disparados de dentro.
Bandidos fizeram um buraco no vidro para colocar fuzil em Araçatuba
Arquivo pessoal
Até este sábado (4), seis pessoas foram presas. Em Araçatuba, a polícia prendeu um casal que confessou ter agido como olheiro do grupo. Em Campinas, um homem de 27 anos foi preso e confessou ter ajudado no planejamento da ação.
Dois homens baleados deram entrada em um hospital de Piracicaba. Eles foram presos por suspeita de participação no crime, mas um deles acabou morrendo. Na última sexta-feira (3), dois homens foram presos em São Pedro. Eles estavam com roupas militares e outros itens. Eles ainda são considerados suspeitos.
Comerciante morto durante mega-assalto gravou ação dos criminosos em Araçatuba
Além do personal Márcio Victor, o comerciante Renato Bortolucci, de 38 anos, também foi morto pela quadrilha. Ele gravava a ação dos criminosos quando foi baleado, segundo a polícia.
Cinco pessoas ficaram feridas. Duas delas receberam alta e três seguem internadas na Santa Casa de Araçatuba. O estado de saúde delas é estável.
Morador de Araçatuba foi atingido por explosivo deixado pro criminosos que atacaram bancos na cidade
Arquivo Pessoal
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