Piora da região foi registrada na segunda (23), após seis dias apresentando índices da epidemia compatíveis com a fase amarela; governo estadual mantém reclassificação oficial na próxima segunda-feira (30), um dia depois da realização do 2º turno. Média de internações diárias por Covid-19 na Grande São Paulo volta a números de setembro após semanas de queda
A região da Grande São Paulo, que desde terça-feira da semana passada (17) passou a apresentar indicadores da epidemia de Covid-19 compatíveis com a fase amarela do Plano SP, viu a situação piorar. Desde segunda (23), o indicador passou a ser compatível com a fase laranja. A piora foi puxada pelo aumento de internações em todas as seis sub-regiões da Região Metropolitana, e também pelo registro de mais de 40 internações por 100 mil habitantes.
O patamar, na segunda (23), foi de 45,16 novas internações para cada 100 mil habitantes. Nesta terça, ele subiu para 45,59, e o indicador ficou pelo segundo dia consecutivo na fase laranja, segundo os dados divulgados no fim da tarde. O cálculo dos indicadores do Plano SP foi feito pela produção da TV Globo, com base nos dados oficiais e seguindo as regras de cálculo atuais do plano.
O Plano São Paulo regulamenta os estágios da quarentena no estado. Na fase amarela, os comércios têm horário e capacidade máxima reduzida. Já a fase laranja é considerada de controle. Nela, a maior parte dos setores não podem permanecer abertos (leia mais sobre o Plano São Paulo).
Em entrevista ao SP2, a secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, afirmou que o governo paulista vai manter a decisão de fazer uma reclassificação oficial do Plano SP na próxima segunda (30), um dia depois da realização do 2º turno das eleições municipais.
Com isso, a Grande São Paulo já está há 46 dias com regras de reabertura da fase verde.
“Se precisamos retroceder em alguma região, não será a primeira vez que isso ocorreu, e nós sempre contamos com a população nesse processo”, afirmou a secretária. Ela explicou que, atualmente, os dados mais confiáveis são justamente os das internações, que usam uma fonte estadual (o Censo Covid) e não sofreram com a instabilidade em novembro dos sistemas de notificação de casos e óbitos, mantidos pelo Ministério da Saúde.
“Houve sem dúvida nas últimas duas semanas aumento de internações, por isso que nós estamos tomando as medidas de precaução, mas precisamos dessa semana adicional pra termos a estabilidade da classificação completa de todas as regiões do estado de São Paulo”, afirma Patrícia Ellen, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico de SP.
Segundo ela, o motivo parcial da piora na situação foram aglomerações que não seguem as regras de distanciamento da quarentena. “Nós já sabemos que parte do problema que nós tivemos nas últimas duas semanas tem a ver exatamente com a baixa de guarda das pessoas. Nós vimos relatos de aglomerações, de festas clandestinas, de eventos desnecessários nesse momento.”
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Trabalhadores infectados
Para a coordenadora de ambulâncias Renata Alves, a piora no cenário da epidemia já se traduz nos números. Entre 25 de outubro e o último domingo (22), de 125 chamados que ela atendeu, 98 foram por síndrome respiratória, o principal conjunto de sinais e sintomas ligados à Covid-19, especialmente fora dos meses de inverno, quando o vírus da gripe circula mais pela capital.
Para Alves, o problema não está apenas em pessoas fazendo festas ou reuniões: dos pacientes que ela atendeu, as histórias são de pessoas que voltaram a circular para trabalhar.
“Desses casos que nós fizemos atendimento, todas as pessoas saíram pra trabalhar. São pessoas que estavam trabalhando, não são pessoas que estavam na quarentena. São pessoas que voltaram à vida normal, vamos dizer assim, e esse período foi por pegar condução”, afirmou ela.
Indicadores devem piorar, diz especialista
O médico cardiologista Márcio Bittencourt, que é mestre em saúde pública pela Univerisdade Harvard e trabalha no Hospital Israelita Albert Einstein e pesquisador da Clínica Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo, afirma que a tendência é que os números continuem piorando nas próximas semanas.
“A gente já está num segundo momento do aumento dos casos. Não tem que esperar chegar uma segunda onda, porque a primeira não acabou e a gente já encavalou uma segunda aceleração agora. A gente já está nesse momento”, disse Márcio Bittencourt, pesquisador do HU-USP.
O aumento das internações já está levando hospitais a ampliar o quadro médico mais uma vez, antecipando o aumento da demanda disse Bittencourt. Em termos de equipamentos, ele considera o estado bem preparado, mas indica que encontrar mão-de-obra especializada o suficiente para operar os leitos pode voltar a ser um problema.
O médico alerta, no entanto, que a questão dos leitos é secundária, e que o mais importante é conter o contágio, para evitar novos casos hoje para que, nos próximos dias, seja possível evitar novas internações.
“Nossa maior preocupação é a velocidade de transmissão da comunidade”, afirmou ele, que defende o recrudescimento das medidas “não farmacológicas”, ou seja, a quarentena, o isolamento e as precauções sanitárias, para evitar o aumento de casos, de internações e de óbitos.
“A gente tem sistema para socorrer, mas uma parte das pessoas que internam morrem. Uma parte das pessoas que internam ficam com sequelas. Então a única estratégia razoável é contar a transmissão antes das pessoas se infectarem.”
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