Alameda Dino Bueno voltou a ter barracas fechando a rua. Moradores relatam conflitos recorrentes na região e ação truculenta da GCM contra usuários. Secretaria de Segurança Urbana diz que realiza triagem das barracas para impedir que “não sejam usadas pelo tráfico de drogas”. Moradora da região da Cracolândia registra ação da GCM
Barracas voltaram a tomar conta da Alameda Dino Bueno, na Cracolândia, região da Luz, Centro de São Paulo. Uma moradora da região registrou imagens de uma operação de limpeza da Guarda Civil Municipal (GCM) em que é possível observar diversas barracas montadas na via. Os usuários são proibidos de montar barracas no local, segundo a prefeitura.
Os vídeos, que exibem a ação na Dino Bueno com a Rua Hélvetia, também mostram guardas arremessando bombas e falando para os moradores da rua correrem.
Ao G1, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou que “realiza triagem das barracas na região da Nova Luz, impedindo a montagem destas para que não sejam usadas pelo tráfico de drogas”.
Alameda Dino Bueno, na Cracolândia, registrada em novembro de 2020. Via voltou a ter barracas tapando a visão de quem vê de fora.
Arquivo Pessoal
Svetlana Barcarolo, produtora de eventos que gravou os vídeos, conta que a operação ocorreu por volta das 06h. A produtora estava na janela do apartamento dela quando viu os policiais chegarem e um deles descer da viatura com um cassetete e empurrar um usuário.
Segundo a produtora, ações como essa tem sido recorrentes na região, tanto a montagem das barracas quando as ações violentas da GCM.
“Quando esse policial veio e bateu em um dos moradores com cassetete foi que começou toda a confusão. Começou a correria dos moradores da Craco. Começou bala de borracha, bomba de gás lacrimogêneo… E eu, que estava acompanhando desde o início, vi que os moradores não fizeram nada”, descreve.
Em maio de 2017, mais de 900 agentes das polícias Civil e Militar fizeram uma megaoperação na região. Na época, o então prefeito João Doria chegou a afirmar que a Cracolândia ‘acabou’. Na mesma ocasião, as barracas da Dino Bueno foram destruídas e os usuários migraram para ruas do entorno. Uma base da Polícia Militar chegou a ser instalada no local.
Nesta sexta-feira (20), o prefeito Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, afirmou que “não há uma solução a curto prazo pra esse desafio”, que é a Cracolândia.
“É um caso de saúde pública, um caso grave, requer tratamento. A ação lá é social, é de saúde, de segurança pública, de intervenção urbana e de desenvolvimento econômico do trabalho. Então, a ação lá é multifacetada, pra poder ajudar aquelas pessoas a sair da situação em que se encontram”, defendeu Covas.
Moradora da região da Cracolândia registra abordagem violenta da GCM
Para Svetlana, as ações truculentas são devido a intenção de remover os usuários da região para a construção de moradias populares da iniciativa público privada.
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana alega que a ação ocorreu durante a troca de plantão dos agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e que estes foram agredidos pelos usuários com paus, pedras e garrafas.
Conflitos recorrentes
PM usa bombas de efeito moral em usuários de drogas da Cracolândia, Centro de SP
Na quinta-feira (19), na mesma região registrada pelos vídeos de Svetlana, a Polícia Militar usou bombas de efeito moral para conter o que chamou de “confusão” entre usuários de drogas na Cracolândia.
Segundo a PM, houve um registro de confusão às 17h18 na Rua Helvétia, na altura da Alameda Barão de Piracicaba. A polícia não soube informar o que originou a “confusão”.
No Twitter, o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo da Rua, afirmou que a cena com os barulhos da bomba lembravam Beirute, no Líbano. O caso foi levado para o 77º Distrito Policial, na Santa Cecília.
Em setembro, um vídeo mostrou ao menos três guardas civis metropolitanos agredindo um homem durante uma ação na Cracolândia. Já no chão e rendido, o homem leva chutes no peito e na cabeça, que tenta proteger com as mãos. Ele não reagiu às agressões. Os agentes foram afastados.
Alameda Dino Bueno em 2017, após megaoperação policial na região
Fabio Tito/G1
Íntegra da nota da Secretaria de Segurança Urbana:
“A Secretaria Municipal de Segurança Urbana informa que na última sexta-feira (13/11), durante a troca de plantão dos agentes da Guarda Civil Metropolitana, usuários agrediram o efetivo com paus, pedras e garrafas. Os Guardas Civis Metropolitanos realizam triagem das barracas na região da Nova Luz, impedindo a montagem, a fim de que não sejam utilizadas para o tráfico de drogas”.
* Com supervisão de Rodrigo Rodrigues
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