Número de testes RT-PCR realizados nos laboratórios paulistas públicos e privados chegou a 4,2 milhões, segundo o governo paulista. Pacientes reclamam da falta de testes para a Covid-19 em São Paulo
O estado de São Paulo realizou, desde março de 2020, 4,2 milhões de testes do tipo RT-PCR para diagnosticar casos ativos da Covid-19. No entanto, apenas 28% deles foram feitos pelo poder público. Os dados foram divulgados pelo governo estadual na noite de sábado (21), depois de 36 dias sem informações públicas sobre a testagem em laboratórios particulares.
Veja abaixo a quantidade de testes realizados mês a mês em São Paulo:
Desde março, só 28% dos testes RT-PCR feitos no estado de São Paulo foram realizados pelo poder público.
Ana Carolina Moreno/TV Globo
Em entrevista coletiva nesta segunda-feira (23), o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, afirmou que São Paulo mantém um volume de testagem semelhante ao de países europeus, e acima do patamar de outros vizinhos da América Latina.
“Nós do estado de São Paulo estamos testando muito. Mais de 100 testes para cada 100 mil habitantes. Nenhum país da América Latina faz essa testagem como fazemos. Dessa maneira, o fato de testarmos mais ajuda a entendermos a pandemia na nossa maneira. E é isso que o realmente começaremos a fazer.”
Queda confirmada desde agosto
Os dados divulgados na noite de sábado pelo governo estadual confirmam que, desde agosto, o total de testes vem caindo no estado.
De julho para agosto, a queda foi de 3%. De agosto para setembro, ela se intensificou para 22%. Mesmo assim, em outubro o total foi ainda menor, com queda de 6% em relação a agosto.
Por enquanto, os dados de novembro ainda são preliminares, e o Placar de Testes mantido pelo Sistema de Monitoramento Inteligente (Simi) do governo estadual não indica o tempo médio entre a realização do teste e a notificação no sistema.
Segundo especialistas, o teste tem duas funções. A primeira é confirmar o diagnóstico positivo para a Covid-19 em pessoas apresentam o conjunto de sintomas e sinais de Síndrome Respiratória Aguda Grava (SRAG), para isolar quem está com a doença e oferecer o atendimento adequado, já que ainda não existe medicamentos ou tratamentos clinicamente comprovados para curar a infecção.
Essa função é o que a médica infectologia Cláudia Figueiredo Mello, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas chama de “benefício individual” do teste. “Outros vírus podem dar sintomas semelhantes, e apenas esse teste que consegue diagnosticar quem está com Sars-Cov-2. O quadro clínico outros sinais apontam o diagnostico provável, mas a certeza mesmo vem através do teste”, explica ela.
E a segunda função, segundo a infectologista, “tem um impacto coletivo, orientando adequadamente o isolamento e fornecendo dados epidemiológicos, mostrando as regiões que têm mais casos confirmados e onde é mais importante intensificar medidas de controle”.
“O ideal era que a gente tivesse sempre um aumento na nossa capacidade de teste”, explica a infectologista do Emílio Ribas.
Importância de testar quem não tem sintoma
No Brasil, a orientação do Ministério da Saúde é que estados e prefeituras apliquem o teste nas pessoas com sintomas leves ou graves compatíveis com um quadro suspeito de Covid-19. Em entrevista à TV Globo, Regiane de Paula, coordenadora da Coordenadoria de Controle de Doenças do governo estadual, afirmou nesta segunda que o governo paulista ainda segue essa recomendação.
“Pacientes assintomáticos não fazem o PCR. Se eles forem contatos de pessoas que estão sintomáticas, ou seja, são portadoras de Covid-19, nesse momento elas devem ficar em casa durante 14 dias. Essa é a recomendação que nós seguimos, de acordo com os protocolos do Ministério da Saúde”, afirmou ela.
Em outros lugares do mundo, porém, o teste também é usado como estratégia para rastrear o maior número possível de pessoas que estejam com o vírus ativo, com ou sem sintomas, para isolar quem está com a infecção e impedir que ela passe para mais pessoas.
Essa é a maneira de impedir o surgimento de novos casos, já que, quanto mais casos da doença, mais pessoas doentes acabam precisando de hospitalização, e mais mortes continuam ocorrendo.
“A estratégia de também testar os assintomáticos, os contatos de casos sintomáticos, ela poderia ter sido levada a um controle melhor [da doença] principalmente se ela tivesse sido implantada bem no início, quando faz o isolamento do testado e testa todos os contatos que eles tiveram a gente consegue sim conter melhor a doença.
Apesar de o governo federal orientar que os casos suspeitos, mas sem sintomas, recebam atestado médico de 14 dias para poderem fazer o isolamento, nem sempre essa norma é seguida nos postos de saúde.
O motorista Luiz de Melo Ferreira mora com sua sobrinha, que há poucos dias recebeu o diagnóstico positivo para a Covid-19. Ele tentou fazer o teste em uma UBS na capital, mas não conseguiu.
“Disseram que só poderíamos fazer teste se estivéssemos apresentando sintomas também. Inclusive sintomas respiratórios”, afirmou ele, que também não conseguiu um atestado médico. Por isso, ele ainda precisa sair de casa todos os dias, e pegar transporte público para ir ao trabalho.
“Continuo mantendo contato com outras pessoas, apesar de não saber se tenho, ou não, Covid. Estou usando duas máscaras para manter um pouco mais de segurança”, afirmou ele na manhã desta segunda-feira (23).
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