Para Gonzalo Vecina Neto, um dos idealizadores do SUS e fundador e ex-presidente da Anvisa, é preciso encontrar uma forma de manter leitos abertos com atividade clínica normal para remanejamento caso ocorra a segunda onda. Estado afirma que fez apenas redirecionamento para outras patologias; algumas cidades afirmam que respiradores de hospitais de campanha estão em outras unidades. Hospital de campanha de Mogi das Cruzes funcionou em junho e agosto
João Umezaki/PMMC
Considerando sete de dez municípios do Alto Tietê houve uma redução de 69,3% no número de leitos municipais e estaduais, de UTI e enfermaria, destinados exclusivamente aos pacientes com Covid-19 em relação ao pico da pandemia, entre maio e julho. Todas as cidades da região já encerraram as atividades dos hospitais de campanha montados na época em que a doença fazia mais vítimas.
No entanto, Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), afirma que não é recomendável a redução de leitos nesse momento. “O que acontece na Europa pode acontecer aqui. Aqui tem componentes diferentes da Europa. Eles tiveram uma primeira onda menos importante, mas com a chegada do frio e o fim das férias, a epidemia recomeçou. Talvez a gente tenha sorte de não ter, mas não dá para afirmar isso”, observa Vecina.
O especialista aponta que a redução do número de leitos nesse momento pode pegar os municípios desprevenidos caso aconteça a segunda onda de Covid-19 na região. “É muito arriscado essa disposição dos governos de reduzir o número de leitos no Estado. É muito perigoso.”
Gonzalo Veccina Neto foi o fundador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a presidiu entre 1999 e 2003. O médico também foi um dos idealizadores do Sistema Único de Saúde (SUS).
O professor observa que o cenário ideal seria a manutenção de leitos de UTI de uma forma diferente neste momento em que o número de casos e mortes da doença no Alto Tietê são menores.
“O momento é de cautela. Teria que encontrar um jeito de ficar com os leitos abertos com atividade clínica normal porque existe demanda. Por exemplo, existe fila de espera por cirurgia atrasada por causa da pandemia. Usa dessa forma para não deixar leito ocioso. Se houver crescimento no número de casos, aí volta atender Covid-19, até o momento da vacina.”
Para o especialista, a normalidade ainda vai demorar. “A pandemia não acabou e só vai acabar quando conseguir vacinar boa parte da população.”
Respiradores recebidos pela Prefeitura de Mogi das Cruzes
Ney Sarmento/Prefeitura de Mogi
Redução nas redes municipais e estaduais
Anteriormente, governo do Estado e os sete municípios ofereciam ao todo 769 leitos, entre UTI e enfermaria, e agora esse número está em 236. Uma redução de 69,3%.
Antes do fechamento, Arujá, Biritiba Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Mogi das Cruzes, Poá, Santa Isabel e Suzano somavam 623 vagas em leitos públicos municipais exclusivas para a doença, entre UTI e enfermaria. Com a desativação de hospitais e outras estruturas montadas para o atendimento de Covid-19 a partir de agosto, o número caiu para 157. Uma redução de 74,8%.
Em Biritiba Mirim e Ferraz de Vasconcelos, não há mais leitos municipais exclusivos para a doença.
O G1 questionou todas as prefeituras do Alto Tietê sobre o número de leitos para Covid-19. Apenas as Guararema, Itaquaquecetuba e Salesópolis não responderam.
Além desses, houve redução de 45,9% nos leitos exclusivos para Covid-19 dos três hospitais estaduais que atendem pacientes com a doença causada pelo coronavírus.
Desde agosto, os leitos nos hospitais têm sido redirecionados. Antes, eram oferecidas 146 vagas entre UTI e enfermaria. Atualmente, esse número é de 79.
De acordo com a secretaria, o Governo do Estado “trabalha nas análises técnicas para redirecionamento de parte dos leitos para atender pacientes com outras patologias, que é fundamental para garantir assistência a todos. Toda medida é baseada em monitoramento do cenário e planejamento da rede, visando salvar vidas e assegurar atendimento igualitário. A assistência a qualquer cidadão da região está garantida e se necessário pode ocorrer redirecionamento de leitos exclusivos para COVID-19.A pasta ainda informou que “mantém um esquema especial de gestão de leitos hospitalares, para dar prioridade à internação de pacientes com quadros respiratórios agudos e graves, com suporte da Cross (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde) para as transferências”.
Redução dos leitos municipais para Covid-19 no Alto Tietê
Arujá
Na cidade, mesmo com mudanças feitas pela Prefeitura com os leitos municipais implantados para atendimento aos pacientes de Covid-19, o número total continuou igual, mas se considerados os de UTI houve queda. Hoje o município conta com 16 leitos entre UTI e enfermaria para o atendimento exclusivo de Covid-19.
A Prefeitura informou que em abril implantou 10 leitos de UTI e 6 de enfermaria exclusivos para pacientes diagnosticados com Covid-19, mas, segundo a administração municipal, com a queda no número de internações, a Secretaria Municipal de Saúde, em decisão deliberada junto ao Conselho Municipal de Saúde, reorganizou em outubro o sistema de leitos na cidade.
Desse modo, o município passou a contar com 5 leitos de UTI (PAM Barreto), outros 5 leitos de enfermaria/retaguarda (PAM BARRETO) e 6 leitos de enfermaria/ventilatórios (PA Central) para atendimento de pacientes com Covid-19.
A Prefeitura afirma que define suas ações com base nos indicadores epidemiológicos atualizados diariamente e detalha que “em caso de aumento exponencial dos casos, a Secretaria Municipal de Saúde deliberará junto ao Conselho Municipal de Saúde as medidas necessárias, considerando o cenário epidemiológico, a viabilidade orçamentária e a posição da cidade e região no Plano São Paulo.” A administração municipal ressalta que não abriu hospital de campanha, optando por implantar novos leitos intensivos na rede pública.
Biritiba Mirim
O município implantou em julho um posto de atendimento e isolamento para Covid-19 que tinha 10 leitos, sendo sete para isolamento e três para estabilização. As atividades do local foram encerradas em setembro e agora não há leitos exclusivos para Covid-19 no município, segundo a Prefeitura.
O município conta com 10 leitos de enfermaria e nenhum de UTI. A Prefeitura informou que eles não são exclusivos, mas podem ser usados por pacientes infectados com o novo coronavírus.
Ainda segundo a administração municipal, quando necessária a estrutura para atendimento intensivo, é solicitada a transferência do paciente pelo sistema Cross.
Ferraz de Vasconcelos
Em Ferraz de Vasconcelos, também não há mais leitos municipais exclusivos para Covid-19. Entre maio e setembro, a Prefeitura implantou um hospital de campanha para o tratamento de pacientes de Covid-19.
Segundo a administração municipal, no equipamento havia 10 leitos de UTI com respiradores e 20 de enfermaria (média complexidade) e 50 poltronas para primeiros atendimentos.
Com o fechamento do hospital, a cidade deixa de ter leitos municipais para Covid e conta apenas com as vagas oferecidas no Hospital Regional que é do governo do Estado. (Confira acima o número de vagas nos hospitais estaduais do Alto Tietê)
Mogi das Cruzes
O município teve uma queda de leitos municipais exclusivos para Covid-19, de 81,19%, com o fechamento do hospital de campanha. A unidade funcionou entre junho e agosto.
Segundo a Prefeitura, o equipamento ofereceu um total de 341 leitos para Covid-19, sendo 77 de UTI e 264 enfermaria. Além desses leitos, o município tinha ainda entre junho e julho 79 leitos, entre UTI e enfermaria, no Hospital Municipal, somando 420 leitos.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que montou o Centro de Referência do Coronavírus no Hospital Municipal em março e mantém toda a infraestrutura de atendimento no local. Atualmente são 85 leitos, dos quais 79 são destinados ao Covid-19, sendo 54 de UTI e 25 de enfermaria. Outro seis são para atendimento de outros casos.
De acordo com a secretaria, os espaços estão remanejados para a retomada gradativa das cirurgias represadas, podendo sofrer novas alterações sempre que necessário.
O secretário municipal de Saúde, Henrique Naufel, destaca que por enquanto, a flexibilização dos leitos tem sido suficiente para suprir a demanda. “Com a redução no número de casos registrada a partir de agosto, alguns leitos Covid-19 foram destinados para outros casos e agora estão sendo remanejados para atendimento aos pacientes do novo coronavírus conforme necessidade.”
A administração municipal informou ainda que os respiradores usados no hospital de campanha estão instalados no Hospital Municipal.
Poá
O município teve uma queda de 33,33% no número de leitos municipais exclusivos para Covid-19. A cidade teve um hospital de campanha onde estavam disponíveis 30 leitos, sendo 10 de UTI e 20 de enfermaria.
A Prefeitura informou que após o fechamento do hospital de campanha criou no Hospital Guido Guida um setor isolado com 20 leitos para Covid-19, sendo 10 de UTI e 10 de enfermaria.
Segundo a Prefeitura, a situação da Covid-19 é monitorada na cidade e o município está preparado para voltar com a mesma disponibilidade de leitos e equipes.
A Prefeitura destaca que a retomada do número de leitos que existia com o hospital de campanha pode ser feita imediatamente, porque os leitos de UTI permanecem e seria necessário apenas aumentar os de enfermaria. A administração municipal afirma que os respiradores do hospital de campanha estão no Hospital Municipal Guido Guida.
Santa Isabel
A cidade mantém o mesmo número de leitos municipais desde o início da pandemia: 14. A Prefeitura informou que na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas tinha 9 leitos de suporte ventilatório pulmonar e 5 de enfermaria. Agora a UPA conta com 6 leitos de suporte ventilatório pulmonar e 8 de enfermaria exclusivos para pacientes com Covid-19.
De acordo com a Prefeitura, caso haja um novo aumento nos casos de coronavírus serão reabertos leitos de enfermaria para Covid-19 na Santa Casa.
Quanto aos leitos equipados com respiradores, a Prefeitura afirmou que não houve redução e eles continuam montados exclusivamente para atender casos de Covid-19, embora subutilizados neste momento.
Suzano
O município teve uma queda de 72,81% no número de leitos municipais exclusivos para Covid-19. Segundo a Prefeitura, o maior número de leitos que o município já teve à disposição foi no final de junho 103 no total. O hospital de quarentena foi desativado em setembro.
Desse total, eram 10 leitos de UTI reservados em parceria com o Hospital Previna (reservas sem custo, pagamento apenas mediante ocupação) , um leito UTI reservado para gestantes na Santa Casa de Misericórdia de Suzano, 80 leitos de enfermaria no Hospital de Quarentena e 12 leitos enfermaria no Pronto-Socorro Municipal.
A Prefeitura informou que atualmente o município conta com 28 leitos, sendo 10 leitos de UTI reservados em parceria com o Hospital Previna (reservas sem custo, o pagamento é apenas mediante a ocupação), um leito de UTI reservado para gestantes na Santa Casa de Misericórdia de Suzano e 17 leitos de enfermaria no Pronto-Socorro Municipal.
A Secretaria de Saúde de Suzano informou que acompanha a evolução de casos feito pela pasta em conjunto com o Comitê de Enfrentamento do Coronavírus do município. E a evolução demonstra que a capacidade de leitos da rede pública municipal atende às necessidades e mesmo caso haja um aumento da demanda por internações.
Segundo a Secretaria, uma possível reabertura do Hospital de Quarentena aconteceria apenas em um cenário de crescimento acentuado no número de internações em um curto espaço de tempo, ultrapassando a capacidade de internação da rede municipal e da Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross).
A pasta destaca que todos os equipamentos, entre leitos e ventiladores respiratórios, que foram adquiridos pelo município no início da pandemia para o Hospital de Quarentena são de propriedade da Prefeitura de Suzano e estão à disposição. E também que a parceria com o Hospital Previna para reserva sem custo de leitos de UTI continua, dando a possibilidade de encaminhamento caso o sistema Cross não tenha condições de transferir pacientes para unidades de referência na rede estadual e/ou federal. Segundo a Secretaria de Saúde, estes leitos reservados só geram custo quando são utilizados.
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