A troca dos nomes dessas ruas tem o objetivo de reavivar a discussão sobre a construção da memória da cidade e foi inspirada também no incêndio da estátua do Borba Gato na Zona Sul de SP, segundo a presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP. A rua Amâncio de Carvalho, na Vila Mariana, que teve o nome trocado pelo da moradora de rua Jacinta Maria de Santana
Reprodução/Coletivo Juntos
Estudantes e movimentos sociais fizeram nesta quarta-feira (11) uma ação simbólica na cidade de São Paulo renomeando ruas e avenidas que homenageiam personalidades que tiveram atuação marcada por ações racistas e eugenistas no Brasil por nomes de personalidades negras.
A Avenida Doutor Arnaldo, na Zona Oeste, por exemplo, é uma homenagem ao médico Arnaldo Vieira de Carvalho, fundador e primeiro diretor da Faculdade de Medicina da USP. Ela foi “rebatizada” com o nome da biomédica brasileira Jaqueline Góes de Jesus, mulher negra que coordenou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do coronavírus apenas 48 horas depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no país.
Segundo os historiadores, Arnaldo Vieira foi um dos membros da Sociedade Eugênica de São Paulo, que defendia o fim da miscigenação como forma de “melhorar” os genes dos brasileiros.
Avenida Doutor Arnaldo, na Zona Oeste de SP, teve o nome trocado pelo da biomédica brasileira Jaqueline Góes de Jesus.
Reprodução/Coletivo Juntos
Outra via que teve o nome alterado pelo grupo foi a Rua Amâncio de Carvalho, na Vila Mariana, na Zona Sul, que teve o nome trocado pelo da moradora de rua Jacinta Maria de Santana.
Em 1900, Jacinta teve o corpo embalsamado e exposto como curiosidade científica e utilizado em trotes estudantis no Largo São Francisco pelo próprio Amâncio, que na época era professor de medicina legal da Faculdade de Direito de São Paulo.
De acordo com a presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, Letícia Chagas, aluna da mesma Faculdade de Direito da USP, a troca dos nomes dessas figuras nas placas da cidade tem o objetivo de “reavivar a discussão sobre a construção da memória da cidade”.
A ação, segundo a jovem, foi inspirada também no incêndio da estátua do Borba Gato, na Zona Sul de SP, em 24 de agosto.
“O incêndio no Borba Gato foi um marco importante nas discussões do direito à memória na cidade e no Brasil, que deve ser construída não apenas por homens brancos e elitistas, mas por toda a sociedade. Embora se discuta se colocar fogo na estátua foi uma alternativa correta ou não, a gente tem que continuar esse debate. E a renomeação das ruas é parte disso”, afirmou Letícia Chagas.
Estudante muda nome de placa na Avenida Vital Brasil, na Zona Oeste de SP.
Reprodução/XI de Agosto
“A gente não quer reescrever a história, queremos que ela também seja contada por gente mais simples, por outro ponto de vista que não o da elite branca e masculina. O Brasil tem diversas lideranças populares que podem ser homenageadas também. Os bairros igualmente. Por que não são igualmente homenageados em nomes de rua ou monumentos?”, questiona a presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto.
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Geração das cotas
Letícia Chagas tem 21 anos e está no 4º ano do curso do Direito da Faculdade do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo. Filha de uma empregada doméstica e de um caminhoneiro aposentado de Campinas, no interior de SP, ela é a primeira mulher negra a ocupar o posto de liderança máxima do mais antigo e tradicional Centro Acadêmico do país.
A jovem faz parte da primeira geração de alunos da USP que ingressou na maior universidade paulista por causa da lei das cotas raciais, que começou a ser adotada na USP apenas em 2018, cinco anos depois das universidades federais, que adotaram a regra em 2013.
Letícia Chagas, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, protocola na USP pedido de resolução para tirar monumento de homenagem a figuras racistas e defensoras da eugenia das universidades.
Acervo pessoal
Segundo a moça, o incêndio no Borba Gato e a renomeação de ruas por iniciativa própria dos estudantes são movimentos importantes para chamar atenção das autoridades para o tema da representativa negra em todos os territórios.
“Não é fácil você discutir ou pedir a retirada de um monumento na cidade. Existem leis de tombamento e bastante elitizadas que impedem que o debate seja levado a sério e caminhe dentro dos órgãos. Trocar um nome de rua na Câmara Municipal, por exemplo, que é ainda é composta majoritariamente de homens brancos, é outro desafio enorme”, argumenta Letícia.
Placa do Largo São Francisco é renomeada nesta quarta-feira, 11 de agosto.
Reprodução/XI de Agosto
Os estudantes das universidades públicas de São Paulo, reunidos no Coletivo Juntos, aproveitaram o 11 de agosto, Dia do Estudante, para protocolar na USP, na Unicamp, Unesp e Ufscar um pedido de resolução para que essas universidades comecem a tirar monumentos de bandeirantes, escravocratas e eugenistas dos campi.
O grupo também quer mais facilidade para que nomes de salas e prédios universitários que homenageiem essas figuras possam ser rebatizados.
Placa da Avenida Vital Brasil é mudada para Maria Carolina de Jesus, primeira escritora negra a publicar livro no Brasil.
Reprodução/XI de Agosto
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