Comanda de bar e depoimento de estudante fizeram polícia incriminar José Maria Jr. por dirigir sob efeito de álcool. Empresário nega. Amiga dele foi responsabilizada criminalmente por omissão de socorro a Marina Harkot, que morreu. Os dois respondem aos crimes em liberdade. Motorista José Maria da Costa Júnior fugiu após atropelar e matar a ciclista Marina Harkot com seu Hyundiai Tucson em São Paulo; no detalhe, o vidro estilhaçado pelo impacto
Reprodução/Câmera de segurança/TV Globo e Arquivo pessoal
O motorista José Maria da Costa Júnior, de 34 anos, que fugiu ao atropelar e matar a ciclista Marina Kholer Harkot, de 28 anos, em 8 de novembro, foi indiciado nesta quarta-feira (18) pela Polícia Civil por mais um crime de trânsito: ter bebido e dirigido durante o acidente na Zona Oeste de São Paulo.
No mesmo dia, uma amiga do motorista, a estudante Isabela Serafim, de 21 anos, também foi responsabilizada criminalmente pela polícia por omissão de socorro. Ela e José Maria respondem em liberdade.
Na quarta, Isabela admitiu à investigação que ela e outro homem estavam no banco de passageiros do Hyundai Tucson dirigido por José Maria no momento do atropelamento de Marina na Avenida Paulo VI, região do Sumaré.
O sujeito, que ainda não teve o nome divulgado, já foi identificado pelos investigadores e deverá ser ouvido nos próximos dias no 14º Distrito Policial (DP), em Pinheiros. O inquérito está próximo de ser concluído, faltando ainda o depoimento da família de Marina.
Segundo a polícia, a comanda do Bar Zé da Praia, onde o empresário estava na Vila Madalena, e a amiga dele, Isabela, que prestou depoimento na delegacia, confirmam que o motorista consumiu uísque e energético antes de sair com seu carro. Depois disso, o veículo atingiu a cicloativista. O motorista fugiu com o automóvel sem socorrer a vítima, que morreu no local.
O gerente do estacionamento Iva Park, no Centro, onde José Maria guardou o carro após fugir, também reforça a versão da polícia de que o motorista bebeu e dirigiu. O funcionário havia dito que viu o empresário cambalear e receber uma garrafa de vinho da estudante.
Comanda de bar mostra que José Maria consumiu uísque antes de dirigir e atropelar ciclista em São Paulo
Reprodução
No último dia 9, o Hyundai foi encontrado pela polícia no estacionamento, que fica ao lado do prédio onde José Maria morava. O veículo foi apreendido. Ele estava com o para brisa estilhaçado pelo impacto que o vidro bateu na cabeça de Marina.
No dia 10 de novembro, o motorista havia sido indiciado por homicídio culposo (sem intenção de matar) na direção de veículo automotor e fuga do local do acidente porque não socorreu Marina. Naquela ocasião, José Maria se apresentou à polícia dois dias após o atropelamento e ficou em silêncio durante o seu interrogatório. Por conta do tempo, também não foi possível submetê-lo ao teste do bafômetro ou exame clínico para saber se ele havia ingerido álcool.
Como o empresário não compareceu à delegacia nesta quarta, ele foi indiciado indiretamente, dessa vez por dirigir sob efeito de bebida alcoólica. Esse crime é uma qualificadora do homicídio culposo ao volante.
Região onde Marina Harkot foi atropelada e morta em São Paulo
Rodrigo Rodrigues/G1
Em resumo: Por decisão da Justiça, José Maria não pode ser preso e continuará solto, mas no caso de uma eventual condenação por homicídio culposo, fuga do acidente e dirigir alcoolizado, a sua pena poderá ser aumentada de dois anos para oito anos de prisão. E ao invés do regime semiaberto, ele iria para o fechado.
De acordo com a investigação, mesmo sem ter uma prova técnica do Instituto Médico Legal (IML) de que José Maria tenha bebido e dirigido, a polícia acredita ter outros elementos que demonstram que o motorista conduzia o veículo sob efeito de álcool. São eles: A comanda do bar e os depoimentos da amiga e do gerente.
Investigação
Vídeo mostra motorista chegando de carro em estacionamento de bar em SP
Antes de atropelar Marina, o motorista estava com esse casal de amigos no Zé da Praia na Vila Madalena, bairro boêmio da capital.
A ficha do bar está no nome de José Maria e mostra que ele pagou R$ 26 numa dose de Red Label e R$ 18 numa lata de Red Bull. E ainda havia pago R$ 10 de couvert artístico. Câmeras de segurança gravaram o motorista no local.
Depois, o empresário levou Isabela e o outro homem em seu automóvel para Pinheiros, onde ocorreu a colisão com a ciclista. Nenhum dos três, no entanto, prestou socorro à vítima, que morreu no local. O motorista ainda fugiu com o veículo, mas um motociclista anotou a placa, que levou a polícia a localizar o Hyundai e o seu dono.
A amiga de José Maria só foi identificada e localizada pela polícia depois do acidente, quando apareceu em vídeos com o empresário: num estacionamento e no elevador de um prédio. Isabela disse conhecer o motorista desde a infância.
No detalhe: José Maria aparece em bar na Zona Oeste de São Paulo momentos antes de atropelar e matar Marina Harkot
Reprodução/Câmera de segurança
Sobre o bar, ela falou que bebeu cerveja com o outro amigo. A respeito do acidente, a estudante contou que estava mexendo no celular, quando eles sentiram “uma forte pancada no veículo” e que todos ficaram “muito assustados” e “sem entenderem o ocorrido”. Depois ficaram em “silêncio”.
Isabela ainda teria sugerido a José Maria para parar o carro, mas o motorista não quis.
As imagens do estacionamento mostram o Hyundai chegando com José Maria e seus dois amigos. Em outra filmagem, Isabela aparece com um pano na cabeça para buscar algo no carro do motorista. Segundo o funcionário, era uma garrafa de vinho, que foi entregue a José Maria.
Em seu depoimento, porém, a estudante negou essa informação do gerente: De que tenha pego uma bebida no veículo. Alegou, em contrapartida, que tinha ido pegar um carregador de celular e usou o pano para se cobrir porque estava com frio.
O que dizem os citados
Amiga de motorista usa capuz para pegar algo no carro dentro de estacionamento em São Paulo
Reprodução/Câmera de vídeo
Procurado nesta quarta pelo G1, a defesa de José Maria reafirmou que seu cliente nega que tenha bebido no bar onde aparece nas imagens.
“Eu perguntei agora de tarde e ele respondeu: ‘eu não consumi essa bebida’”, disse o advogado José Miguel da Silva Júnior.
Questionado sobre o uísque e o energético marcados na comanda individual do motorista no bar, a defesa respondeu que José Maria se ofereceu para pagar as bebidas, mas quem as consumiu foi o casal.
“Ele me falou: ‘Eu paguei sim. Paguei com meu cartão’”, afirmou José Miguel. “Ele nega que tenha utilizado bebida”.
“Meu cliente não estava embriagado. Uma hora diz que ele estava com litro de vinho, outra hora que estava cambaleando. Mas nós não temos prova técnica disso”, falou José Miguel. “Ele vai prestar depoimento [para esclarecer e dar sua versão]”.
‘Não tinha noção do que pudesse ter acontecido’, diz homem que atropelou ciclista em SP
No domingo (15) passado, José Maria falou ao Fantástico que estava num bar e não bebeu. Afirmou ainda que não parou porque achou que o impacto no carro fosse algo relacionado a um assalto.
“A gente não tinha noção do que pudesse ter acontecido. Da complexidade, se era um roubo, se era alguma coisa. Um assalto”, disse José Maria.
O G1 não conseguiu localizar a defesa de Isabela para comentar o assunto até a publicação desta matéria.
Investigação
Câmera registra carro que atropelou ciclista na Zona Oeste de SP em alta velocidade
De acordo com a investigação, Marina foi atropelada na última faixa à direita da pista da Avenida Paulo VI. Ela não usava capacete, que é um item de segurança, mas não é obrigatório.
E também não estava na ciclovia por ser um lugar escuro com risco de assaltos, segundo testemunhas. Mesmo assim, a ciclista transitava numa via que também é permitida para bicicletas e num local iluminado onde poderia ser vista pelos motoristas, segundo uma policial militar que estava de folga e à paisana quando presenciou o atropelamento e a fuga do carro.
O limite de velocidade para veículos nesse trecho é de 50 km/h. O 14º Distrito Policial também apura se o motorista do Hyundai dirigia acima da velocidade permitida quando atropelou e matou Marina.
Câmeras da CET flagraram Hyundai de José Maria a 93 km/h na Avenida Sumaré, em São Paulo, onde velocidade máxima permitida é de 50 km/h
Reprodução/CET
Como nenhuma outra câmera gravou o momento do atropelamento, os peritos vão analisar também a marca da frenagem dos pneus do automóvel na pista onde ele atingiu a ciclista. O objetivo é tentar descobrir ou determinar a velocidade aproximada que ele estava.
Uma câmera da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou o carro que atropelou e matou a ciclista a 93 km/h na Avenida Sumaré (veja vídeo acima).
A polícia analisa o vídeo. Mas de acordo com a investigação, a filmagem mostra o momento que o veículo passava pela via após o acidente. A CET ainda aplicou uma multa a José Maria pelo excesso de velocidade.
Perfil
Marina Harkot e o marido Felipe Burato
Reprodução/TV Globo
Marina era cicloativista e pesquisadora de mobilidade urbana. Ela era casada com Felipe Burato. Os dois moravam em São Paulo. O corpo dela foi enterrado em Niterói, no estado do Rio de Janeiro.
A família da vítima comentou que os parentes estavam “totalmente despedaçados” e agradeceu ao apoio dos ciclistas que homenagearam Marina e protestaram pedindo justiça e punição ao motorista que a atropelou e matou.
O caso da morte de Marina repercutiu nas redes sociais, gerando diversas críticas as leis sobre atropelamentos com mortes.
Cicloativistas fizeram vários protestos depois da morte dela. Num deles chamaram José Maria de ‘assassino’ quando ele deixou o 14º DP pela porta da frente após prestar depoimento. Em outros, homenagearam a ciclista com mensagens e fotos.
cicloativistas homenageiam Marina Harkot com foto e cartazes em alusão a ela em São Paulo
Rodrigo Rodrigues/G1
Cicloativista é atropelada e morta em Pinheiros, em SP
Wagner Magalhaes/Arte G1