Convenção de cultura pop voltada à periferia foi ideia de Luíze Tavares e mais 3 amigos em resposta a preços altos das convenções. Projeção de artistas do evento se assemelha ao que fez Paula Brito, 1º editor de Machado de Assis. Série especial do G1 ‘O que nos une’ marca semana da Consciência Negra. O que nos une: conheça Francisco de Paula Brito
A vontade de trabalhar pelo coletivo vem de longe. Luíze Tavares, de 24 anos, participava de grupos que protestavam por direito ao transporte e contra o assédio ainda na adolescência antes de criar com 3 amigos a Perifacon, convenção de cultura pop das periferias. E não fazia ideia de como sua história está conectada à de Francisco de Paula Brito, editor que colocou no mapa a indústria tipográfica brasileira.
“Só agora, nas pesquisas [para a reportagem], fui entender melhor que Paula Brito está muito ligado ao primeiro jornal impresso que pautava a negritude na época dele. Também foi a pessoa que impulsionou, deu um primeiro passo para ajudar Casimiro de Abreu, Machado de Assis e outros nos seus primeiros trabalhos”, conta Luíze.
Na semana da Consciência Negra, o G1 publica a série especial “O que nos une”. As reportagens lembram personagens negros e negras importantes na história do Brasil, através do olhar de pessoas inspiradas por eles ou que têm trajetórias similares.
O que nos une: Carolina Maria de Jesus
O que nos une: Heitor dos Prazeres
O que nos une: Maria Odília Teixeira
Luíze Tavares, uma das criadoras da Perifacon, reforça a importância na divulgação de artistas negros e de projetos com a temática negra
Fábio Tito/G1
Francisco de Paula Brito foi um editor, jornalista, escritor, poeta, dramaturgo, tradutor e letrista brasileiro que viveu na primeira metade do século XIX. Ativista político, foi o primeiro a inserir no debate político a questão racial, criando em 1833 “O Homem de Cor” — primeiro jornal brasileiro dedicado à luta contra preconceitos de raça.
O primeiro emprego de Machado de Assis foi como revisor de provas em uma editora de Paula Brito. E paula foi o primeiro editor dos escritos de Machado, que o definia como “o primeiro editor digno deste nome que houve entre nós”. Também é lembrado como o primeiro empresário negro do país.
Francisco de Paula Brito, em uma de suas únicas representações conhecidas. Ao lado, a capa de seu jornal ‘O Homem de Cor’, lançado no Rio de Janeiro em 1833
Reprodução
“O que conecta Francisco a Luíze? O fato de os dois quererem criar oportunidades para que outras pessoas negras mostrem seus trabalhos e ganhem o mundo”, afirma ela.
Luíze lembra como foi o processo de se enxergar como pessoa negra na sociedade brasileira. “Eu sou formada em relações públicas, e meu processo se estabeleceu muito quando eu tive algumas experiências em multinacionais, em grandes empresas. Quando você vê uma mulher negra ali, ou essa mulher negra não está numa posição de liderança, ou essa mulher normalmente não banca a mulher negra que ela é. Ela esconde o cabelo, ou ela usa umas roupas mais discretas. Enfim, de alguma forma esse ambiente tende a oprimir mulheres negras e homens negros”, recorda.
Luíze Tavares, uma das criadoras da Perifacon, reforça a importância na divulgação de artistas negros e de projetos com a temática negra
Fábio Tito/G1
Segundo ela, esse tipo de situação minava sua auto-estima enquanto profissional e enquanto mulher no passado. Hoje, como uma das porta-vozes da Perifacon, ela ressalta o papel do evento na difusão de artistas negros e de temáticas na área, seja nos quadrinhos, nos jogos, no cosplay. Isso em um espaço que cria referências para o público jovem da periferia.
“Há 2 anos, a gente falava que o Perifacon era a primeira comic con das favelas. É uma iniciativa criada por quatro jovens negros de periferia, que decidiram criar sua própria feira de quadrinhos, uma feira do mundo da cultura pop. Simplesmente porque a gente nunca conseguiu acessar as grandes convenções, que acontecem nas zonas centrais e têm alto preço nos ingressos”, explica.
Luíze Tavares, uma das criadoras da Perifacon, reforça a importância na divulgação de artistas negros e de projetos com a temática negra
Fábio Tito/G1
De lá pra cá, o projeto já deu tão certo que cresceu exponencialmente em tamanho e estabeleceu parcerias com gigantes do entretenimento. A ideia era fazer o evento este ano em um espaço para receber 30 mil pessoas no Centro Cultural de Formação Cultural Cidade Tiradentes (CFCCT). Mas a pandemia atravessou esse plano, e a Perifacon correu para a web.
Isso depois de a primeira edição da Perifacon atrair algo entre 4 mil e 7 mil pessoas na primeira edição, feita na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, onde Luíze deu entrevista ao G1. “Um dos motivos pra termos escolhido fazer o evento em uma Fábrica de Cultura é a importância de todos esses aparelhos culturais que estão espalhados pela cidade pra comunidade local”, diz
Luíze Tavares, uma das criadoras da Perifacon, reforça a importância na divulgação de artistas negros e de projetos com a temática negra
Fábio Tito/G1
São diversas Fábricas espalhadas pela cidade de São Paulo, contando com programação diversa voltada totalmente para a cultura. Entre os diferenciais está a riqueza de temáticas da negritude no acervo das bibliotecas, ponto comum entre esses aparelhos nas diferentes zonas da cidade. Apesar da pandemia, os locais continuam oferecendo programação online que pode ser conferida no site.
Agradecimentos: a Emanoel Araújo, artista e autor de ‘A Mão Afro-Brasileira’; à Fábrica de Cultura do Capão Redondo; à pesquisadora Heloísa Pires (USP); aos colegas Marcelo Brandt e Clara Velasco.
Luíze Tavares, uma das criadoras da Perifacon, reforça a importância na divulgação de artistas negros e de projetos com a temática negra
Fábio Tito/G1