Dados do Caged mostram que das 235.364 contratações registradas na RMC entre janeiro e julho de 2021, apenas 1.135 foram de PCDs. Passados 30 anos da criação da lei de cotas para garantir maior participação das pessoas com deficiência (PCD) no mercado de trabalho, o percentual dessa mão de obra contratada na Região Metropolitana de Campinas (RMC) ainda é ínfima. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do governo federal, mostram que eles representam apenas 0,48% do total de trabalhadores admitidos no primeiro semestre de 2021.
Segundo o levantamento das 20 cidades que integram a RMC, foram registradas 235.364 admissões entre janeiro e junho, sendo que 1.135 desses trabalhadores tinham deficiência. Veja números da RMC abaixo:
Pessoas com deficiência no mercado de trabalho na RMC
Tânia Regina Araújo, de 30 anos, é de Campinas (SP) e tem deficiência intelectual. Ela conta que fez cursos técnicos na área da saúde e que está há um ano e dois meses em busca de trabalho. O último emprego foi de recepcionista e relatou o problema da falta de oportunidades.
“A gente manda currículo e a empresa não chama, não dá resposta, você fica esperando a resposta e não tem ou a resposta é negativa”, afirmou.
Tânia Regina Araújo tem deficiência intelectual e busca emprego há um ano e dois meses em Campinas
Arquivo pessoal
Já Daniela Bastos, 38 anos, moradora de Valinhos (SP), é pedagoga e está há cinco anos em busca de emprego. Ela tem deficiência visual e afirma que a maior dificuldade de encontrar trabalho está na falta de acessibilidade.
Por conta da baixa visão, Daniela precisa de um leitor de tela no computador e, segundo ela, para isso, basta baixar o programa adequado.
“Eu percebo que as empresas descartam imediatamente do processo seletivo por ser uma pessoa com deficiência”, disse.
Além disso, Daniela ressaltou a falta de vigilância dentro dos ambientes de trabalho para garantir o cumprimento da Lei de Cotas. “Eu acho que se tivesse uma fiscalização maior nas empresas, eles iam ter que se mexer mesmo”, salientou.
Novo polo de empregabilidade prevê qualificar 36 mil pessoas com deficiência em Campinas
Lei de Cotas
A Lei de Cotas foi criada em 1991 e completou 30 anos no dia 24 de julho deste ano. Ela visa a diversidade no ambiente de trabalho e o aumento de oportunidades para pessoas com deficiência.
“Toda empresa com 100 ou mais funcionários tem uma cota progressiva. Essa cota progressiva começa com 2% em empresas que tem até 200 trabalhadores e vai até 5% para empresas com mais de 500 trabalhadores”, explicou Patrick Schneider, gestor de recursos humanos.
Patrick reforçou que para a Lei de Cotas ser efetiva é preciso uma maior fiscalização para cobrar que as empresas cumpram as normas.
O gestor também apontou que a legislação deveria ser ajustada a realidade atual do Brasil, onde a maioria das empresas são com menos de 100 empregados. Dessa forma, as oportunidades se limitam a poucas companhias.
“Temos 98% dos contratantes do país que não participam da Lei de Cotas, que são os microempresários, pequenos empresários e até empresas de médio porte”, explicou.
Diversidade no mercado de trabalho
Muitas empresas falam sobre diversidade no ambiente de trabalho e realizam ações para que mulheres e pessoas negras, por exemplo, ocupem espaços de poder. No entanto, Schneider ressaltou como as pessoas com deficiência não são incluídas pelo fato de já possuírem uma legislação própria.
“Então, a pessoa com deficiência acaba tendo dificuldades por todos os lados, se amplificando e, ao fim do dia, não gerando a igualdade material. A diferença de igualdade formal e material é que uma está relacionada a legislação que diz que todos são iguais perante a lei e a outra é quando a gente realmente percebe que todo cidadão é tratado de forma igualitária”, disse.
E quem trabalha?
Apesar de muitas pessoas com deficiência estarem em busca de um emprego, há aquelas que conseguiram se inserir no mercado de trabalho, como o caso do campineiro Eduardo Servidoni, de 44 anos. Ele tem deficiência intelectual leve e trabalha no almoxarifado de um hospital da metrópole há seis anos.
Servidoni contou que não foi fácil conseguir o atual emprego e pensa que deveria existir mais vagas para pessoas como ele trabalharem. “Eu acho que deveria ter mais oportunidades, mas o mercado ainda não está preparado para esse público”, lamentou.
Já Bianca Dias, de 24 anos, de Indaiatuba (SP), conta que trabalha como preparadora física do time de futsal para pessoas com síndrome de Down da Ponte Preta. Ela afirma que ainda percebe muitos preconceitos em relação aos PCDs e que, por isso, não conseguiu emprego na cidade onde vive.
Mesmo diante das dificuldades que uma pessoa com deficiência enfrenta, Bianca ressaltou a importância de não ter vergonha de ser quem é e acrescentou com uma dica para quem busca oportunidade. “Elabora um bom currículo, faça uma boa entrevista e seja você mesmo”, finalizou.
Bianca Dias e o time de futsal para pessoas com Síndrome de Down da Ponte Preta
Marcos Ribolli
*Sob supervisão de Fernando Evans
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