Na quinta, governo de SP reforçou orientação de que dose de reforço no estado será com a ‘vacina que estiver disponível no posto’, e atacou Ministério da Saúde por não indicar CoronaVac para dose adicional. Cientistas criticaram governo de SP por não priorizar Pfizer para reforço em pessoas acima de 80 anos. São Bernardo do Campo vai começar a aplicar dose de reforço em idosos no sábado
A cidade de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, anunciou nesta quinta-feira (2) que vai usar vacinas da Pfizer e da AstraZeneca para a campanha de reforço contra Covid-19 em idosos de 85 anos ou mais a partir deste sábado (4).
A vacinação deste grupo será feita em domicílio, seguindo os mesmos moldes da campanha inicial, quando as famílias de idosos acima de 85 anos foram contatadas pelas equipes de Saúde do município para agendamento das visitas.
Frascos de vacina contra a Covid-19.
ÉRICA MARTIN/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
O plano do município difere do estadual, anunciado pela gestão João Doria (PSDB) nesta quarta-feira (1º), em dois pontos: data e fabricante dos imunizantes.
Segundo o plano estadual, a vacinação de reforço começa apenas na segunda-feira (6) e para idosos com mais de 90 anos. Além disso, a orientação estadual é para que sejam aplicadas doses de todos os fabricantes – a vacina deve ser a “que tiver disponível no posto de saúde no momento”.
O G1 questionou a Secretaria da Saúde do estado de São Paulo sobre a adoção de vacinas específicas em municípios da Grande São Paulo, em discordância da orientação do plano estadual. Em nota, a secretaria afirmou que “os municípios são orientados com relação aos critérios para vacinação e têm autonomia para a execução em seus territórios”.
“Todos os imunizantes em uso na rede pública de saúde são seguros e eficazes e podem ser usados para as estratégias definidas pelo PEI (Plano Estadual de Imunização). A adoção de todos os imunizantes para uso no estado foi avaliada e aprovada pelo Comitê Científico”, diz ainda o texto.
A decisão do estado de SP de não escolher o imunizante para a vacinação com a dose de reforço contra a Covid-19, em desacordo com a orientação do Ministério da Saúde, provocou críticas de cientistas à gestão João Doria.
O Ministério da Saúde recomendou a dose de reforço para pessoas com mais de 70 anos e imunossuprimidos, e determinou que a imunização deverá ser feita, preferencialmente, com uma dose da Pfizer.
Cientistas que estudam a pandemia destacaram estudos que mostram maior proteção para idosos com uma dose de reforço da Pfizer, como estipulado pelo governo federal.
Eles afirmam que a CoronaVac tem bons resultados para evitar a forma grave da doença, mas que não deveria ser a primeira opção para a dose de reforço.
“Infelizmente nós não temos o dado se isso realmente vai conferir proteção pra essa população. Ao passo que vacina Pfizer, a gente tem muito mais dados, dados vindo dos Estados Unidos, outros países europeus mostrando que a resposta imune seja boa. E seja inclusive mais prolongada, então a gente melhoraria tanto a efetividade da vacina, a proteção da população vacinada e eventualmente também o tempo de proteção”, disse à TV Globo a infectologista Rosana Richtmann.
O secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, defendeu a utilização da CoronaVac.
“A ciência mostra através dos trabalhos que também ocorreram lá na China que ocorre uma resposta importante com a terceira dose de CoronaVac para pacientes com idade superior a 60 anos, aumentando a sua proteção em 77%. São quase 7 vezes mais um reforço de produção de anticorpos neutralizantes, fazendo com que, então, essa proteção acabe sendo expandida, inclusive para as formas variantes, como a própria variante delta”, disse na quarta-feira (1º).
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que não garantirá doses para os estados e municípios que adotarem esquemas vacinais diferentes do que foi definido no Plano Nacional de Imunização (PNI). A pasta disse ainda que “alterações nas recomendações podem influenciar na segurança e eficácia das vacinas na população”.
Resposta imune para idosos
Idoso com mais de 85 anos recebe vacina contra Covid-19 em Recife (PE)
GENIVAL PAPARAZZI/PHOTOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O pesquisador da Fiocruz, Júlio Croda, também considera que a decisão do governo estadual de não utilizar a Pfizer como primeira opção para os idosos é errada.
“Concordo com o Ministério da Saúde no que diz respeito à utilização de Pfizer nos idosos e imunossuprimidos. Essa população apresenta menor resposta em termos de anticorpos neutralizantes e precisamos de uma vacina que possa induzir uma maior resposta”, disse.
Croda já foi membro do grupo de cientistas que assessorava a gestão Doria nas decisões sobre a pandemia. O Centro de Contingência foi dissolvido no último dia 16, na véspera do fim das medidas de restrição de horários e público no estado – decisão que também foi criticada pelos especialistas.
O pesquisador destacou o estudo publicado na revista The Lancet que mostrou uma resposta 10 vezes superior na produção de anticorpos neutralizantes com um reforço da fabricante Pfizer, na comparação com um reforço feito com CoronaVac. A pesquisa, vinculada à Universidade de Hong Kong, foi feita com 93 profissionais de saúde que haviam recebido anteriormente duas doses da vacina CoronaVac.
Embora a CoronaVac já tenha se provado efetiva na diminuição das internações e mortes pela Covid, o estudo comparativo com a vacina da Pfizer aponta melhor resultado justamente na população idosa, em que é mais difícil alcançar maior resposta imunológica.
Defesa da CoronaVac
Durante coletiva de imprensa nesta quarta (1º), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que a nota técnica do Ministério da Saúde que definiu a Pfizer como prioridade na dose de reforço não seguiu parâmetros técnicos. O governo federal também apontou o imunizante da AstraZeneca como opção, mas não incluiu a CoronaVac.
“Estamos aqui tratando de questões técnicas, científicas, e essas apontam que a terceira dose com a CoronaVac aumenta enormemente a resposta imune. Mas, do outro lado, temos um posicionamento que é até mais político por parte do Ministério da Saúde quando descredencia essa vacina como terceira dose”, disse.
Especialistas convocados pela gestão Doria ressaltaram que a proteção de todas as vacinas é reduzida para pessoas com mais de 80 anos.
“O que se observou é que, acima dos 80 anos de idade, você tem uma redução do fator imunoprotetor independentemente de qual é a vacina utilizada, ou seja, qualquer imunizante, tanto imunizantes inativados, vetor viral, vacina de RNA mensageiro. Todas as vacinas têm esse perfil”, destacou Sérgio Cimerman, infectologista do hospital Emílio Ribas.
Integrantes do governo estadual de São Paulo, ao lado do governador João Doria (PSDB), em coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes nesta quarta-feira (1)
Marina Pinhoni/G1 SP
No entanto, os médicos não abordaram os diferentes estudos sobre as combinações possíveis para a dose de reforço. Questionado sobre o tema por jornalistas, o coordenador do comitê contra Covid-19 de SP, o médico João Gabbardo, alegou que há vantagens na aplicação de reforço com qualquer fabricante.
“Existem trabalhos, e a própria nota técnica do Ministério da Saúde aponta o aspecto positivo também das pessoas que foram vacinadas com duas doses de receberem a terceira dose da CoronaVac”, disse Gabbardo.
Fabricante da dose de reforço
Na última quarta-feira (25), o o G1 questionou a Secretaria da Saúde de SP sobre a adoção de combinações de vacinas que ainda não foram estudadas. A pasta respondeu que todos os esclarecimentos do governo “foram feitos em entrevista coletiva nesta quarta (25)” e disse que as vacinas são seguras para a aplicação como dose de reforço.
“Todas as vacinas contra a Covid-19 disponíveis no Brasil são seguras, eficazes e têm a mesma finalidade: proteger contra a doença e reduzir chances de infecções graves pelo coronavírus. Todos os imunizantes disponíveis poderão ser usados na aplicação de terceira dose no estado”, disse o governo estadual, em nota.
Frascos da vacina CoronaVac, contra a Covid-19.
WILLIAN MOREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
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