Izabel Monteiro, de 33 anos, trabalha na Biblioteca Carolina Maria de Jesus, do Museu Afro Brasil, em SP, e vê similaridades entre sua vida e a da escritora, que é sua grande inspiração. Maior obra de Carolina, diário ‘Quarto de Despejo’ completa 60 anos. O que nos une: conheça a escritora Carolina Maria de Jesus
Antes de entrar na faculdade para cursar biblioteconomia, Izabel Monteiro, de 33 anos, fez um preparatório no Cursinho Popular Carolina de Jesus, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Saiu de lá, como diversos outros estudantes, sem saber sequer que era uma importante escritora negra quem dava nome ao local.
Também mal sabia que essa coincidência faria tanto sentido poucos anos depois, quando conseguiu um estágio na Biblioteca Carolina Maria de Jesus, que faz parte do Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera.
Na semana da Consciência Negra, o G1 publica uma série especial que lembra personagens negros e negras importantes na história do Brasil, através do olhar de pessoas inspiradas por eles ou que têm trajetórias similares.
Izabel Monteiro, responsável pela Biblioteca Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, exalta a memória da escritora e seu ‘diário de uma favelada’. Ela posou para fotos no amanhecer diante do museu onde trabalha, no Parque Ibirapuera
Fábio Tito/G1
“Até então eu não sabia a importância dessa mulher negra na literatura brasileira. E aí eu vim trabalhar no museu, onde eu tive o contato com as obras da Carolina. Inclusive, eu li todos os livros da Carolina, sou fã da escrita dela. Preservar essa memória é uma responsabilidade muito grande, um desafio que eu faço com o maior orgulho”, afirma Izabel.
Não por acaso, os olhos da bibliotecária brilham quando alguém pergunta sobre Carolina. Depois de estudar sobre a vida da escritora, Izabel viu familiaridades entre a história delas duas.
Carolina Maria de Jesus saiu de Sacramento, no interior de MG, para tentar a vida em São Paulo, onde se instalou na favela do Canindé, na Zona Central. Os pais de Izabel também haviam deixado o Nordeste em busca de oportunidades na cidade grande do Sudeste.
Izabel Monteiro, responsável pela Biblioteca Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, exalta a memória da escritora e seu ‘diário de uma favelada’. Ela posou para fotos no amanhecer diante do museu onde trabalha, no Parque Ibirapuera
Fábio Tito/G1
“Eu moro no Capão Redondo, em uma das maiores favelas aqui do estado de São Paulo, e eu também fui em busca do meu sonho. Mesmo sofrendo preconceitos por ser mulher, por ser negra. Eu sempre procurei o melhor pra minha vida. Como a Carolina. Então, acho que essa é a maior ligação entre nós, além da paixão pela literatura”, reflete.
Bel, como é conhecida pelos colegas do museu, lembra que o personagem principal de Carolina era a fome. “Como ela dizia, a fome é amarela”, conta. E explica que o título da grande obra da escritora, “Quarto de Despejo”, faz referência à favela, ao lugar onde a sociedade joga o que não presta. “É aquele quarto de entulho, onde você joga o que não utiliza mais”, resume.
“Ela dá esse grito para que as pessoas olhem para as favelas, para os favelados”, explica Izabel sobre o livro.
Izabel Monteiro, responsável pela Biblioteca Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, exalta a memória da escritora e seu ‘diário de uma favelada’. Ela posou para fotos no amanhecer diante do museu onde trabalha, no Parque Ibirapuera
Fábio Tito/G1
Ainda sobre o diário de Carolina de Jesus, Izabel reforça que este ano o “Quarto de Despejo” completa 60 anos de seu lançamento. Com estilo de escrita original, a narração da vida na favela entre os anos de 1955 e 1960 fascinou o país e, depois, o mundo. A tiragem inicial de 10 mil exemplares da editora Francisco Alves foi esgotada em uma semana. Nas décadas seguintes, a obra foi traduzida para mais de 16 línguas.
Sobre a própria vida, Izabel exalta o momento em que começou a trabalhar no Museu Afro Brasil como o ponto de virada para que ela começasse a entender questões sobre a própria negritude.
Izabel Monteiro, responsável pela Biblioteca Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, exalta a memória da escritora e seu ‘diário de uma favelada’. Ela posou para fotos no amanhecer diante do museu onde trabalha, no Parque Ibirapuera
Fábio Tito/G1
“Neste espaço eu consegui me colocar e me entender como mulher negra, como cidadã brasileira, entender os meus direitos. Entender que vivemos em uma sociedade racista, mas não podemos desistir. E não só pela cor, mas também pela questão da religião, que eu não conhecia muito o candomblé, a umbanda. Eu passei a entender essa questão do respeito, entender que faz parte da cultura brasileira”, Izabel reflete.
Izabel Monteiro, responsável pela Biblioteca Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, exalta a memória da escritora e seu ‘diário de uma favelada’. Ela posou para fotos no amanhecer no museu onde trabalha, no Parque Ibirapuera
Fábio Tito/G1
Apontado como o segundo maior museu temático de arte africana do mundo, o Museu Afro Brasil conta com cerca de 8 mil peças em seu acervo. A Biblioteca Carolina Maria de Jesus abriga cerca de 15 mil livros, em sua grande maioria de autores negros ou que abordam assuntos ligados à cultura negra.
Agradecimentos: a Emanoel Araújo, artista e autor de ‘A Mão Afro-Brasileira’; ao Museu Afro Brasil; à pesquisadora Heloísa Pires (USP); à colega Clara Velasco
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