Ideia inicial era realizar primeira etapa do estudo apenas com moradores de Ribeirão. Pesquisador justifica relatos de quem não conseguiu participar e diz que cerca de metade das 418 pessoas necessárias para a fase 1 já recebeu a dose. Testes clínicos da ButanVac está na fase 1
Divulgação/GESP
O Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto (SP) começou a buscar em outras cidades da região voluntários para os testes de fase 1 da ButanVac, vacina brasileira contra a Covid-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan.
Segundo o diretor do Hemocentro e coordenador dos estudos, Rodrigo Calado, a ideia inicial era recrutar apenas pessoas de Ribeirão durante essa primeira etapa.
Porém, diante do avanço da campanha de imunização na cidade, que já vacina jovens de 18 anos, e como os voluntários não podem, obrigatoriamente, ter sido vacinados ou infectados pela doença, foi necessário buscar alternativas.
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Dados do “vacinômetro” do governo estadual apontam que Ribeirão Preto já vacinou 67,3% da população total com a primeira dose da vacina e 27,13% com as duas doses ou dose única.
“Seria muito mais fácil se fossem só moradores de Ribeirão Preto, porque é muito mais simples a logística. Mas a gente sabia que isso poderia não dar certo por conta do avanço da vacinação. Como houve esse avanço, a gente está buscando pessoas próximas”, disse.
Para ampliar a busca por voluntários, Calado explica que, além de chamar pessoas de outras cidades da região que já haviam feito o cadastro, está sendo feita ainda uma busca ativa nesses locais.
Com isso, uma equipe do Hemocentro foi até Franca (SP) na sexta-feira (13) e planeja ir a Jabotical (SP) nesta segunda-feira (16).
“Tendo em vista essa aceleração em Ribeirão Preto, começamos a contactar outros municípios da região onde a vacinação está mais lenta e onde pessoas não vacinadas poderiam participar (…). Os de Ribeirão Preto a gente já convocou quase que todo mundo. Então estamos fazendo uma mistura de busca ativa e mais as pessoas que se cadastraram anteriormente.”
Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, SP
Reprodução/EPTV
Pessoas que não conseguiram se vacinar
Durante os primeiros dias de aplicação da ButanVac em voluntários, o G1 ouviu relatos de duas pessoas que se voluntariaram para a fase 1, mas não conseguiram receber a dose.
Uma delas disse que foi chamada para realizar os exames de triagem necessários para verificar se poderia participar, porém não recebeu os resultados dos testes.
Já a outra contou que informou no cadastro que já havia tomado uma dose da vacina, mesmo assim foi chamada para participar dos testes. No dia e local da aplicação, porém, foi comunicada que não poderia.
Questionado, Rodrigo Calado acredita que podem ter sido casos “fora da curva”. Ele explicou que habitualmente as pessoas são orientadas a voltar ao HC no dia seguinte da realização dos exames para buscar o resultado.
“Normalmente, a gente agenda para o dia seguinte. Se a pessoa não comparece, a gente vai atrás dessa pessoa, para saber por que ela não veio”, explica.
Sobre o segundo caso, Rodrigo diz que um erro do candidato na hora de preencher o cadastro pode ter gerado a confusão.
“A gente passou a lista para ter certeza. A gente faz todos os filtros para chamar só pessoas que não foram vacinadas. Pode ser que na hora de colocar lá [no cadastro], a pessoa vai colocar um ‘sim’, entra um ‘não’, e fica diferente. Mas a gente passa o filtro para quem já tomou vacina não vir.”
Fase 1 deve terminar em até 2 semanas
A pesquisa clínica de fase 1 e 2 está dividida em três etapas (A, B e C), que devem envolver, ao todo, seis mil voluntários com 18 anos ou mais.
A etapa A da fase 1 contará com a participação de 418 voluntários, que começaram a receber as doses no dia 27 de julho. Ela vai avaliar a segurança e a seleção de dose (dose de imunizante que será incorporada na vacina definitiva).
De acordo com Calado, por volta de 200 pessoas já receberam até agora a vacina ou o placebo. Com isso, o coordenador espera recrutar todos os voluntários e terminar a etapa em até 14 dias.
De acordo com Doria, o Butantan já terá fabricado 40 milhões de doses da ButanVac até outubro deste ano
Getty Images/Via BBC
Próximos passos
Segundo o Instituto Butantan, a previsão é de que a pesquisa dure 17 semanas, mas o prazo pode ser alterado já que o avanço para a próxima etapa está condicionado à conclusão da fase anterior e análise dos dados.
As etapas B e C do estudo têm como objetivo avaliar a resposta imune de mais de 5 mil voluntários. Nelas, será feita a comparação entre o desempenho da nova vacina do Butantan contra a Covid-19 e outras vacinas que estão em uso e já têm dados publicados, como a CoronaVac, também produzida no instituto paulista.
ButanVac é desenvolvida pelo Instituto Butantan
Reuters
Além da eficácia geral da ButanVac, os ensaios clínicos vão avaliar seu desempenho diante das novas variantes do SARS-CoV-2. Após as informações da fase 3, o Butantan poderá submeter o pedido de aprovação para o uso do imunizante à Anvisa.
A futura aprovação regulatória depende do desempenho da vacina na pesquisa: para ser aceito, o produto deverá apresentar uma eficácia mínima de 50%, como preconizado pela Organização Mundial da Saúde. Até o momento, essa taxa foi superada por todas as vacinas disponíveis hoje no país.
Como é a ButanVac?
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A ButanVac consiste na Proteína S desenvolvida dentro de ovos de galinha. Nos embriões em desenvolvimento, os pesquisadores inserem o vírus da “doença de New Castle”, encontrado em aves, mas inofensivo a humanos, geneticamente modificado para expressar a estrutura do coronavírus que se encaixa nas células humanas e as infecta.
Depois que o vírus se desenvolve no embrião, o ovo é inoculado e a porção que contém a Proteína S é extraída. Estima-se que cada ovo tenha material suficiente para produzir duas doses de vacina.
Pelos insumos de fácil acesso no Brasil, a ButanVac foi apresentada como uma opção viável de imunizante porque tem um custo considerado baixo em relação a outras vacinas contra a Covid-19, e que dispensa a importação de matéria-prima.
Além disso, tem uma base tecnológica já utilizada na vacina contra a gripe. Com isso, a ButanVac é uma aposta de produção em ampla escala, que pode não só atender o Brasil, mas outros países com dificuldades de acesso a imunizantes.
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