A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, observa uma questão que considera muito relevante em 2026: muitas comunidades têm boa vontade genuína para acolher mulheres em risco, mas faltam passos práticos que transformem essa disposição em um sistema de apoio funcional e sustentável ao longo do tempo.
Primeiro, mapeie quem já está em situação de risco
Antes de organizar qualquer estrutura de apoio comunitário, é preciso saber quem, dentro da comunidade, já enfrenta esse tipo de situação delicada. Taiza Tosatt Eleoterio elucida que isso não significa expor ninguém publicamente, o que seria contraproducente e até perigoso, mas criar canais discretos pelos quais mulheres possam sinalizar, se quiserem, que precisam de algum tipo de suporte.
Líderes comunitários, professores e profissionais de saúde que já têm contato regular com as famílias costumam estar em posição privilegiada para perceber sinais de alerta, desde que saibam como agir com discrição e responsabilidade diante do que observam no dia a dia. Uma capacitação simples e acessível sobre como abordar o tema, sem constranger ninguém, já faz diferença significativa nesse primeiro passo tão importante.
Depois, organize uma rede de contatos e recursos disponíveis
Uma lista atualizada de serviços de referência, como CRAS, delegacias especializadas e casas de acolhimento da região, evita que cada pessoa precise pesquisar tudo do zero no exato momento de uma crise, quando o tempo e a clareza mental costumam estar mais escassos do que em qualquer outra hora do dia.
Nesse âmbito, Taiza Tosatt Eleoterio comenta que essa organização prévia e cuidadosa é o que diferencia uma comunidade que apenas quer ajudar de uma comunidade preparada para ajudar de forma eficaz quando a situação realmente exige rapidez e clareza sobre os próximos passos concretos.
Estabeleça um canal de comunicação simples e discreto
Um grupo de mensagens, um número de contato conhecido ou mesmo uma pessoa de referência acessível a qualquer momento fazem diferença real na hora de buscar ajuda rapidamente, sem burocracia desnecessária que possa desencorajar quem já está em crise. Combinar um código simples e discreto, como uma palavra ou emoji específico, pode ajudar a mulher a sinalizar urgência mesmo quando não pode falar abertamente sobre o que está vivendo naquele momento.
Esse canal precisa ser discreto o suficiente para que a mulher não tema ser identificada por outras pessoas, incluindo o próprio agressor ou pessoas próximas a ele, ao buscar apoio nesse espaço comunitário construído com cuidado e atenção.
Sustente o acompanhamento ao longo do tempo, não só na crise
Taiza Tosatt Eleoterio demonstra que o erro mais comum e recorrente nessa estrutura costuma ser sustentá-la apenas durante momentos de crise aguda, quando a mobilização coletiva é intensa, e deixá-la esvaziar assim que a urgência aparente passa e a atenção de todos se volta para outra coisa qualquer.
Manter contato discreto e contínuo com quem já precisou de ajuda, mesmo em períodos de calma aparente, é o que garante que a rede ainda exista quando for necessária novamente, sem precisar ser reconstruída do zero a cada nova situação de crise.
Um sistema que se fortalece com prática e continuidade
Nenhuma dessas etapas precisa ser perfeita ou completa desde o início. Comunidades que começam de forma simples, ajustando o processo aos poucos com base na própria experiência acumulada, costumam construir redes mais duradouras do que aquelas que tentam criar um sistema completo e perfeito de uma só vez.
Em síntese, Taiza Tosatt Eleoterio frisa que o mais importante é começar de fato, mesmo que de forma modesta, e manter o compromisso genuíno de melhorar a estrutura ao longo do tempo, conforme a própria comunidade aprende, na prática, o que funciona melhor para a sua realidade específica.



